quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O Papa dos judeus



Por Francisco Panmolle
Fratres in Unum.com – Após a leitura do artigo O dilema moral de Pio XII, escrito pelo grande homem e (por necessidade lógica) grande católico Hermes Rodrigues Nery, questionei-me (e não só a mim) acerca do conhecimento, por vezes parco, que nós temos dos grandes homens do passado. Dentre estes, destaca-se o Santo Padre Pio XII, de veneranda memória, sobre o qual se propagam “fábulas e reconstituições históricas bastante grosseiras” [1] que já constituem uma verdadeira lenda negra. Esta apareceu, há pouco mais de uma década (1999), travestida de “séria investigação” conquanto não fosse senão o vômito requentado dos fautores do mal: “O Papa de Hitler – A história secreta de Pio XII” do jornalista John Cornwell. Esse foi o livro que motivou não só o supracitado artigo mas, também, o livro do vaticanista Andrea Tornielli: “Pio XII – O Papa dos Judeus”.

Tornielli, já bastante conhecido nos meios católicos, escreveu não como jornalista, apologeta ou historiador (o que, vale ressaltar, ele não é [2] e, por isso, consultou não raras vezes o professor Matteo Napolitano) mas como um cooperador da verdade, a qual tinha sido gravemente vilipendiada pela malícia do livro de Cornwell, acerca do qual assere:

O jornalista inglês John Cornwell, há mais de dois anos [1999], não duvidou em apodar Eugênio Pacelli como o Papa de Hitler e, embora seu livro tenha sido cabalmente refutado por conceituados estudiosos de diversas tendências, católicas ou não, contribuiu para que se tecesse mais um pedaço desta lenda negra.

O trabalho do jornalista inglês havia sido, segundo Tornielli, “cabalmente refutado”, donde surge a questão: por que, então, escrever mais um livro sobre o tema? A resposta encontra-se na natureza do cristão. Leão XIII, ao abrir os Arquivos Vaticanos, proferiu categoricamente que “a Igreja não deve temer a verdade” e isso por um motivo bastante óbvio, o católico é adorador da Verdade: “Ego sum via et veritas”! (Jo XIV, 6) Mas não é de hoje, ou de ontem tampouco, que a verdade acerca do venerável Pio XII fora preterida pela chamada “lenda negra”. Tendo isso em vista, Andrea Tornielli escreveu “O Papa dos Judeus” a fim de contribuir para o debate que, como afirma o autor, permite uma reconstituição histórica série que resultaria reconhecer que Eugênio Pacelli “pertence à categoria daqueles que merecem em Israel o título de ‘justos’” [3].

Acerca de “O Papa de Hitler” – cuja capa consta, sagaz e maliciosamente, de uma foto do então núncio Eugênio Pacelli saudado por um oficial alemão (e não nazista, posto que a Alemanha de então era a República de Weimar) e que tem por efeito “confirmar” sub-repticiamente o título – e de seu autor, creio que seja bastante elucidativo o seguinte trecho do capítulo segundo:

Apresentando-o [um relatório acerca do judeu Max Levien, chefe dos revolucionários espartaquistas,] como inédito e definitivo – “uma bomba de efeito retardado” (like a timebomb) –, o autor de O Papa de Hitler pretende provar a “incontroversa antipatia para com os judeus” do futuro Pio XII. O jornalista inglês conta que recuperou no Arquivo secreto do Vaticano, onde tinha permanecido sepultado e esquecido. Mas a verdade é que o texto, ao contrário do que afirmou Cornwell, não estava de modo nenhum inédito. Já tinha sido publicado integralmente alguns anos antes, juntamente com muitos outros, num livro documentado de Emma Fattorini, Germania e Santa Sede. Le nunziature di Pacelli tra la Grande Guerra e la Repubblica di Weimar (Il Mulino, Bolonha 1992). Portanto não é verdade que a carta tenha sido conservada ciosamente secreta – como afirma o autor de O Papa de Hitler – até ele ter conseguido desenterrá-la; como também não é verdade que Cornwell tenha investigado durante muitos meses nos Arquivos secretos. Em vez de se aventurar nos Palácios do Vaticano, ter-lhe-ia bastado passar numa boa livraria para encontrar, já muito bem impressa, a “prova” que procurava [4].

E a nota que lhe segue:

O jornalista inglês, na apresentação do seu livro no “Sunday Times” de 12 de setembro de 1999, afirmou que tinha frequentado o Arquivo secreto vaticano durante “muitos meses” (for months on end). “L’Osservatore Romano” de quarta-feira, 13 de outubro de 1999, desmentiu-o numa nota publicada com relevo na primeira página: “No referido Arquivo são cuidadosamente anotadas e guardadas indicações precisas acerca do dia e do lapso de tempo (horas e minutos), em que cada uma das pessoas foram admitidas à consulta. Destes dados conclui-se que o senhor Cornwell foi admitido nesse Arquivo desde 12 de maio de 1997 a 2 de junho de 1997, portanto já não durante ‘muitos meses’ mas por um período de cerca de três semanas. Também se conclui que, neste período de tempo muito mais limitado, o senhor Cornwell não se apresentou todos os dias e que, nos dias em que lá se deslocou, a sua permanência se limitou, frequentemente, a períodos muito breves” [5].

Como dito, contudo, o livro de Cornwell não é o primeiro a propagandear a “lenda negra” – como também não o fora a não menos hedionda peça de Hochhuth, “O Vigário”. Assim sendo, o trabalho de Tornielli não é a mera refutação de “O Papa de Hitler” mas se estende, como é necessário, a outras calúnias e imprecisões. Algumas das quais são tão grosseiras que demonstram a predisposição generalizada à calúnia, como o seguinte exemplo. No aniversário da noite dos cristais de 1998, o rabino chefe askhenazi de Israel, Meir Lau exclamou: “Onde estava o Papa naquele dia? Onde estava Pio XII a 9 de novembro de 1938, enquanto os nazistas destruíram as sinagogas e as lojas dos judeus? Por que não condenou a kristallnatch?” – e continuou – “Caros amigos, se Pio XII tivesse dito uma só palavra em 1938, hoje a história dir-nos-ia que tinham sido salvos muito mais judeus”. Os jornais do dia seguinte constavam de títulos como “Onde estava Pio XII?” e “Vergonhoso silêncio de Pio XII sobre o progrom de novembro”. Havia só um problema com esse “silêncio” pacelliano: Pio XII só foi eleito no ano seguinte. Mas, como atesta Tornielli, “o ‘deslize’ não foi julgado digno de retificação, nem sequer em três linhas na última página” [6].

“O Papa dos Judeus” é um trabalho cuidadoso e apurado do vaticanista Tornielli, que merece atenção e destaque, mas, graças ao Bom Deus e à Sua Mãe Santíssima, não é o único. Muitos bravos homens já se levantaram – também entre nós, como o atesta o supracitado artigo do professor Hermes Rodrigues Nery –, até mesmo fora das fileiras católicas. Dentre estes, é justo fazer referência ao rabino estadunidense David G. Dalin, com seu “The Myth of Hitler’s Pope: How Pope Pius XII Rescued Jews from the Nazis” (“O Mito do Papa de Hitler – Como o Papa Pio XII Resgatou Judeus [das mãos] dos Nazistas”, sem qualquer previsão de tradução para o português), o qual refuta diretamente ao ex-seminarista progressista John Cornwell. O rabino conclui: “Todos [os polemistas] utilizam os sofrimentos do povo judeu há cinquenta anos atrás para forçar mudanças na Igreja Católica hoje” [7]. Lapides clamabunt! (Lc XIX,40)

Termino esse apontamento com a citação de Tornielli ao supracitado rabino: “Quase nenhum dos livros recentes quer realmente tratar de Pio XII e do holocausto. O seu verdadeiro assunto é outro muito diferente: Pio XII torna-se uma arma para falar da Igreja de hoje, a maior arma dos católicos liberais contra os tradicionalistas”[8]!

* * *

TORNIELLI. A. Pio XII. O Papa dos Judeus. Porto: Livraria Civilização Editora. 397p.

O livro contém apêndice com fotocópias, bibliografia e índice de nomes, o que facilita o aprofundamento no tema.

[1] TORNIELLI. A. Pio XII. O Papa dos Judeus. Porto: Livraria Civilização Editora. p. 11.

[2] Também Cornwell não é historiador. Sobre o conhecimento histórico acerca de Pio XII, Tornielli assere: “O livro que o leitor tem em mãos não é uma defesa de Pio XII. Antes de mais, porque o Papa Pacelli – que está efetivamente sob processo, mas de beatificação – não tem necessidade de ser defendido por um jornalista. E, depois, porque a história autêntica deve ser escrita pelos autênticos historiadores.” (TORNIELLI. A. Pio XII. p. 11.)

[3] Ibidem. p. 22.

[4] Ibidem. p. 55.

[5] Ibidem. p. 55, n. 5.

[6] Ibidem. p. 12.

[7] http://www.deuslovult.org/2008/09/11/pio-xii-e-os-judeus-2/

[8] Ibidem. p. 361.

Fonte:http://fratresinunum.com/2013/01/02/o-papa-dos-judeus/

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