segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Latim X Vernáculo

Perguntas e respostas



Publicado em Alberto Zucchi, Cartas, Igreja, Liturgia, Modernismo e Progressismo, Papado, Vaticano II

 Remetente: Gustavo Silveira
 Escolaridade: Pós-graduado
 Profissão: Servidor Público
 Religião: Católico
 Localização: Areado – MG , Brasil


Prezados amigos da Montfort,
 Salve Maria!

Parabéns pelo site que tanto estimula milhares de pessoas a conhecer e praticar a doutrina católica. Minha dúvida é simples: se o Concílio de Trento condenou o uso da língua vernácula na liturgia, por que o CV II o autorizou? Não seria uma contradição, ou há margem para essa interpretação nos documentos do Concílio de Trento?

Deus lhes pague.

Certo da resposta, me despeço.
Resposta.


Prezado Gustavo,
 Salve Maria!

Para esclarecer a questão, colocamos abaixo o trecho do Concílio de Trento ao qual sua carta faz menção (Concílio de Trento, sessão XXII, cap. 8):

“Ainda que a Missa contenha um grande ensinamento para o povo fiel, todavia não pareceu bom aos Padres do Concílio que ela seja celebrada em língua vulgar (… ) o Santo Concílio ordena aos pastores e a todos aqueles que têm cura de almas a darem explicações frequentemente, durante a celebração das Missas, por si próprios ou por meio de outros, à partir dos textos lidos na Missa e, dentre outros, esclarecer o mistério desse sacrifício, sobretudo nos domingos e dias de festa”

O Papa tem o poder de permitir ou proibir o uso da língua vernácula na liturgia conforme julgar conveniente. Não há contradição sob esse aspecto. No Concílio de Trento, com muita razão, julgou-se que isso era inconveniente. O mesmo mostra o Rev. Padre João Batista Reus em seu livro “Curso de Liturgia” (1944) em que diz:

“1. No princípio da Igreja nenhuma língua fora proibida para a Liturgia nem por Nosso Senhor nem pelos apóstolos. Jesus Cristo celebrou a missa no cenáculo provavelmente em língua aramaica, que era o idioma popular. Os apóstolos ter-Lhe-ão seguido o exemplo.

2. Contato com os pagãos. Logo que se iniciou a evangelização dos pagãos, as duas línguas mais faladas, a latina e a grega, foram admitidas na Liturgia. Assim, as três línguas, em que estava escrito o título da santa cruz, hebraica (aramaica), grega e latina, serviram à Liturgia.
 (…)

4. As línguas romanas. Em Roma, nos três primeiros séculos, a Liturgia era celebrada em grego. Há várias circunstâncias justificadoras desta asserção: 1) a língua oficial na administração romana era a grega; 2) os cristãos em Roma entendiam o grego, pois a epístola [de São Paulo] aos romanos foi escrita em grego; 3) os papas e os escritores cristãos em Roma, p. ex., S. Justino, Taciano, escreveram em grego; a Liturgia de S. Hipólito de Roma está redigida em grego; 4) ainda hoje [nota: em 1944] na missa papal solene o evangelho e a epístola se cantam em grego e latim. Esta cerimônia, no princípio, era necessária por causa dos fiéis que só entendiam o grego. Depois foi conservada para significar que a Igreja católica abrange todos os povos. Restos da língua grega há em várias partes da Liturgia, p. ex., Kyrie, ágios o theós. (…)

VANTAGEM DA LÍNGUA LATINA NA LITURGIA

A língua litúrgica latina é:

1 uma língua venerável. Pois é o produto do desenvolvimento histórico e secular, consagrada pelo uso multi-secular.

2. Uma língua estável. A Igreja conserva-a por saber que as suas palavras são a expressão fiel da fé católica. Tal certeza não teria com traduções continuamente reformadas e adaptadas à língua viva. Os gregos, apesar de separados da Igreja romana, guardaram a sua fé quase completamente devido em grande parte à sua Liturgia antiga.

3. Língua fixa. A língua latina é muito aperfeiçoada, com termos próprios, formados pela legislação romana.

4. Língua misteriosa e santa. É convicção geral que, para um ato tão santo como a missa, a língua quotidiana é menos conveniente. Os hereges, faltos de respeito de Deus, introduzem logo a língua vulgar na Liturgia. Seguindo o exemplo do Concílio Tridentino, Alexandre VII (1661) nem sequer permitiu a tradução do missal em francês. Hoje isto se concede; mas nega-se a licença de usar a língua vulgar na Liturgia, principalmente da missa. Existe o perigo de serem abusadas pelo povo baixo as palavras que contêm os divinos mistérios.

5. Língua unitiva. A diversidade das línguas separa os homens, a língua comum une-os. A língua latina une as igrejas particulares entre si e com Roma.

6. Língua civilizadora. Todos os membros do clero devem aprender latim, e por isso podem aproveitar para a sua formação esmerada os autores clássicos antigos e a doutrina profunda dos santos padres da Igreja.

(…)

8. Mas, dizem, o povo não entende nada da missa. Responde-se: A missa é uma ação, não um curso de instrução religiosa. No Calvário não havia explicações. O altar é um Calvário. Todo cristão sabe o que significa: imolar-se. Além disso, o Concílio Tridentino (sess. 22) encarrega os sacerdotes “que frequentemente expliquem alguma coisa do que se lê na missa”.(p. 46-47)

Hoje muitos defendem o uso da língua vernácula na Missa. No entanto, gostaria de saber quantos padres teriam de fato uma boa nota num exame de compreensão de texto em português mesmo!
 O próprio Concílio Vaticano II não aboliu o uso da língua latina em troca da língua vulgar na liturgia. Veja os seguintes parágrafos do texto do concílio “Sacrosanctum Concilium” que trata da liturgia (n.36):

Ҥ 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.

§ 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admoestações, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes”.

E, em outra parte, contra os padres “criativos” modernos, diz o Concílio (n.22 §3):

“ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica”.

O que ocorreu, no entanto, é que, na prática, os Bispos abusaram das brechas abertas pelo texto do Concílio e excluíram completamente o latim das igrejas e impuseram traduções mal feitas dos textos litúrgicos com os frutos desastrosos consequentes.

Veja, então, que o que o Concílio de Trento sabiamente fez não foi condenado pelo Concílio Vaticano II, embora esse último tenha deixado abertas brechas para que os Bispos locais fizessem adaptações na liturgia local segundo a conveniência julgada por cada um. A história deixou claro que tratou-se, portanto, de uma ação pastoral equivocada do Concílio Vaticano II, pois na prática, muitos Bispos, numa ação autodestruidora da Igreja, para parafrasear Paulo VI, causaram grande dano à Missa e às almas retirando o latim da liturgia (e também dos seminários!).

Felizmente o Papa Bento XVI tenta reverter a desastrosa administração dos Bispos e busca revalorizar o latim o tanto quanto pode.

Alberto Zucchi

Fonte: http://www.montfort.org.br/index.php/tag/concilio-vaticano-ii/

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