quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Liturgia 27º DOMINGO COMUM (07 de outubro)



Deus nos fez família
Vida Pastoral – julho-agosto 2012 – ano 53 – n. 285

Outubro Mês das Missões
“Brasil missionário partilha a tua fé”.



I. INTRODUÇÃO GERAL

Outubro é o mês das Missões. Somos todos discípulos missionários do Senhor a partir da
Família. Deus criou o homem e a mulher de modo que se reconhecessem extensão um do outro e vivessem na igualdade e mútua complementaridade.


O casamento é uma bênção divina. O marido e a esposa assumem o compromisso de se doarem um ao outro, conscientes de que já não são dois, mas uma só carne (I leitura).  Jesus, em seu Evangelho, orienta os casais a viverem o amor em profundidade e não se deixarem conduzir por ideologias que permitem e facilitam a separação por qualquer motivo.

O amor exige sacrifícios (= fazer o que é sagrado), do mesmo modo como Jesus amou doando sua vida em favor de todos. Ele abraça e abençoa cada criança defendendo seus direitos e sua dignidade. Faz-se solidário com cada mulher e cada homem levando-os à perfeição (II leitura); pais e filhos são chamados a expressar cotidianamente o amor trinitário, vivendo e promovendo os valores do diálogo, do respeito mútuo, da igualdade e da paz.



II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Gn 2,18-24): Homem e mulher: uma só carne

O texto faz parte do segundo relato da criação (Gn 2,4b-25). Reflete sobre a missão
que o ser humano recebeu de ser o colaborador de Deus no cultivo do “jardim” ou no cuidado com a natureza a fim de que ela produza os alimentos necessários para a vida. O humano e a natureza estão intimamente unidos. É do húmus da terra que o humano é modelado. Ele recebe o poder de dar nomes aos outros seres, os animais. Tem a função de cuidar da criação de Deus.

A narrativa aponta para o caminho da realização o ser humano. Não é bom que esteja só. Deus não nos criou para a solidão. Entre todas as criaturas, o homem não encontrou uma “auxiliar” que lhe correspondesse. Enquanto sozinho se sente inferior aos animais.

Os autores procuram explicar como foram criados o homem e a mulher, interpretando a realidade que perpassa a existência humana. A linguagem revela que estão inseridos num contexto patriarcal. A palavra “auxiliar” não deve ser interpretada como ajudante submissa.

Há igualdade na diferença. É do lado do coração do homem que nasce a mulher. Tornam-se companheiros e extensão um do outro.

Revelam-se um ao outro na transparência. Necessitam-se, admiram-se e atraem-se mutuamente, unem-se e formam uma só carne. São duas pessoas livres e conscientes que vivem em comunhão e se realizam mutuamente sem anular-se em sua individualidade. O “sono profundo” no qual Deus faz cair o homem “é um sinal do mistério que cerca a relação homem-mulher”. Um foi criado para o outro e, quando se unem na relação matrimonial, estão obedecendo ao projeto de Deus, que emerge do mais fundo de cada um, a fim de formar uma nova unidade para os dois, para os pró Vida prios filhos e para a sociedade” (Como ler o Livro de Gênesis, de Ivo Storniolo e Euclides Balancin, p. 17).

Conforme podemos perceber no conjunto desse segundo relato da criação, estabelece-se uma íntima ligação não só entre o homem e a mulher, mas também com todas as demais criaturas. A relação de companheirismo e de comunhão entre ambos se estende para a relação com toda a natureza. Os seres humanos, a terra, a água, as árvores, os animais e todas as demais criaturas vieram da mesma fonte e necessitam-se mutuamente. O artífice divino tudo fez com muita arte e criatividade. E tudo entregou ao nosso cuidado.


2. Evangelho (Mc 10,2-16): A família como expressão do amor

Os fariseus se aproximam de Jesus para pô-lo à prova. Eles pertencem ao grupo de intérpretes da Sagrada Escritura, participantes de escolas rabínicas onde se debatia a respeito dos motivos que justificavam o divórcio, uma vez que era permitido pela lei judaica. De fato, no livro do Deuteronômio (24,1) lê-se: “Quando um homem tiver tomado uma mulher e consumado o matrimônio, mas esta, logo depois, não encontra mais graça a seus olhos, porque viu nela algo de inconveniente, ele lhe escreverá uma ata de divórcio e a entregará, deixando-a sair de sua casa em liberdade”.

Com base nessa orientação, podiam-se encontrar motivos para o divórcio com muita facilidade. Bastava o marido desejar a separação. É somente ele quem pode tomar a iniciativa, pois, segundo a mentalidade dominante, ele exerce o domínio sobre a mulher considerada como sua propriedade. Deduz-se daí que tanto no ambiente doméstico como em outros níveis sociais a opressão masculina era exercida com normalidade, legitimada pela interpretação oficial da lei judaica elaborada e interpretada somente por alguns homens.

Os ensinamentos e a prática de Jesus revelam que a lei deve estar a serviço da vida do ser humano e não o contrário. Para os fariseus, porém, a lei mosaica devia ser cumprida como condição para o homem ser justo diante de Deus. Jesus não nega a lei judaica, mas a coloca em seu devido lugar. “Foi por causa da dureza dos vossos corações que Moisés escreveu esse mandamento.”

O texto da Sagrada Escritura não pode ser retirado de seu contexto. Também não pode ser interpretado de forma fundamentalista. O critério para a verdadeira interpretação é a vida digna sem exclusão e não os interesses pessoais ou corporativos.

Esse grupo de fariseus propositalmente não levava em conta outros textos que permitiam orientações diferentes para a questão do casamento e do divórcio. Jesus, porém, argumenta a partir de um outro ponto de vista. Ele resgata o plano inicial do Criador: “Desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher... E os dois serão uma só carne”.

O casamento, portanto, deve basear-se no plano criador de Deus. Ele estabelece a igualdade fundamental entre o homem e a mulher. Nenhuma lei pode contradizer esse desígnio divino. Jesus condena a atitude de dominação do homem sobre a mulher e restabelece o direito igual para ambos de tomar decisões. Os dois se tornam uma só carne e, portanto, “o que Deus uniu o homem não separe”. Em outras palavras: se Deus criou a mulher e o homem com a mesma dignidade e a mesma liberdade, o homem não pode quebrar essa relação que fundamenta o amor verdadeiro entre ambos.

Assim, a separação não se dará por qualquer motivo. E se houver motivos sérios para isso,
o discernimento e a decisão não podem ser tomados de forma unilateral.

A sequência da leitura mostra que a casa/ comunidade onde se encontram os discípulos
de Jesus é o espaço do diálogo e do discernimento. É também o lugar da acolhida, do abraço e da bênção, com prioridade às crianças, que são as mais afetadas pelas atitudes egoístas ou insensatas dos adultos representados pelos discípulos que repreendem as crianças.

Essa atitude agressiva dos adultos contradiz o modo terno e acolhedor de Jesus, cuja vida
é pautada pela não violência, pelo respeito ao outro, pelo perdão... Enfim, Jesus promove o projeto de inclusão familiar e social, de modo que todos usufruam das condições materiais e afetivas para uma vida feliz.


3. II leitura (Hb 2,9-11): Jesus se fez nosso irmão

Esse texto da carta aos Hebreus trata da opção solidária de Jesus para com toda a humanidade, assumindo o sofrimento e a morte. Paradoxalmente, a honra e a glória de Jesus manifestam-se em sua morte em favor de toda a humanidade. A cruz, então, tornou-se para todos os que creem em Jesus o caminho da vitória sobre toda a maldade que procura impedir o plano de amor e de salvação de Deus.

Ao assumir a condição humana com seus limites e dores, nos torna também participantes
de sua morte redentora. Ao identificar-se plenamente com o ser humano, possibilitou que o ser humano se identificasse com a sua divindade. Por isso, Jesus não se envergonha de nos chamar de irmãos.

A grandiosidade de Jesus manifesta-se em sua radical humildade e obediência ao plano de Deus. É nosso modelo e caminho. Foi assumindo os sofrimentos e a morte, na fidelidade à sua missão, que Jesus nos redimiu e nos levou à perfeição. Como humanos, fazemos a experiência cotidiana dos limites e sofrimentos. Tornando-se um de nós, Jesus conhece perfeitamente todos os problemas que enfrentamos.

Não fomos criados para o sofrimento, e sim para a perfeição e a glória. No seguimento de Jesus, assumimos a realidade de nossa condição humana com a missão a que fomos chamados, deixando-nos conduzir pela graça de Deus, na certeza de seu amor sem limites. Aprendemos a reconhecer a sua vontade e nos esforçamos para sermos fiéis. A fidelidade a Deus exige rompimento com as facilidades enganosas que nos desviam do caminho da perfeição. A plena realização somente se dá na obediência a Deus que acontece no amor solidário. Na cruz de Jesus, morremos para o egoísmo e passamos a viver na condição divina. Aí reside nossa honra e glória de irmãos de Jesus.


III. PISTAS PARA REFLEXÃO

– Deus não criou o ser humano para a solidão. Homens e mulheres foram criados para viverem lado a lado, com a mesma dignidade e igualdade de direitos. Necessitam um do outro. Em nossos dias, a questão de gênero
está em debate. O plano original de Deus no que diz respeito à relação entre mulheres e homens ainda não se concretizou. A visão dominante manifesta ainda preconceitos e discriminações ligados à condição feminina.

Prova-se inclusive que a relação histórica de dominação do homem sobre a mulher reflete-se na sua atitude de exploração da natureza e destruição do meio ambiente. Podem-se levantar fatos, atitudes e linguagens que revelam a visão a esse respeito que ainda predomina em nossos dias...


– Somos discípulos missionários do Senhor a partir da família. O casamento é uma instituição divina. Exige séria preparação a fim de que seja assumido com consciência e liberdade. Homem e mulher tornam-se uma só carne: concretiza-se a unidade na diferença. O amor entre marido e mulher é caminho de mútua santificação. Estende-se para os filhos. Jesus corrige a mentalidade farisaica que permitia a separação por qualquer motivo. Ele resgata o plano original de Deus e restabelece a igualdade de direitos da mulher. É oportuno refletir sobre a importância da família para a vida de cada um de nós e sobre as consequências doloridas e até desastrosas de um ambiente familiar onde reina o machismo, a violência, o desrespeito...

– Jesus fez-se plenamente solidário com o ser humano, assumindo os sofrimentos e a morte. Ele é o nosso irmão maior. Conhece perfeitamente os limites e problemas que enfrentamos em nosso dia a dia. Seguindo a Jesus, não desanimamos no caminho da perfeição. Todas as situações, mesmo as difíceis (crises no casamento, separações, doenças, mortes) podem ser assumidas como momentos propícios para acolher a graça de Deus, rico em misericórdia...


FONTE: Revista Vida Pastoral – Paulus
Vida Pastoral – julho-agosto 2012 – ano 53 – n. 285
http://www.paulus.com.br/institucional/index.php?option=com_periodico&controller=periodico&task=periodico_detalhes&id_periodico=93#periodicomenu

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