quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Preparação para as leituras - 25° Domingo Comum


25º DOMINGO COMUM (23 de setembro)

A vida dos ímpios e a vida dos justos
Vida Pastoral – julho-agosto 2012 – ano 53 – n. 285


MÊS DA BIBLIA

No Mês da Bíblia deste ano de 2012, será estudado o evangelho de Marcos a partir do tema “Discípulos Missionários a partir do evangelho de Marcos” e do Lema “Coragem! Levanta-te, ele te chama!” (Mc 10,49).




I. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras deste quarto domingo do mês dedicado à Bíblia refletem sobre duas diferentes lógicas pelas quais o ser humano pode conduzir a sua vida: a do ímpio e a do justo. O livro da Sabedoria informa que a lógica do ímpio desconsidera a vontade de Deus para usufruir o tempo presente e dos bens deste mundo, buscando satisfazer seus desejos egoísticos.

Não se importa com o próximo necessitado e contrapõe-se ao modo de pensar e de agir da pessoa justa, caluniando-a, perseguindo-a e matando-a. Diferente é a lógica do justo: ele leva em máxima conta o conhecimento de Deus, segue sua vontade e se gloria de ter Deus por pai (I leitura).


O Evangelho chama a atenção: a lógica do ímpio pode contaminar os próprios discípulos de Jesus. Ela se manifesta na atitude de disputa de poder entre eles, contrariando os ensinamentos e a prática de Jesus: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”.

A carta de Tiago (II leitura) adverte que “onde há inveja e preocupação egoística, aí estão as desordens e toda sorte de más ações”. E orienta para o modo verdadeiro de conduzir a vida: conforme a sabedoria que vem de Deus.



II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sb 2,12.17-20): O justo perseguido

O livro da Sabedoria é resultado da reflexão dos judeus da diáspora. Foi escrito em grego, na cidade de Alexandria, no Egito, pelo ano 50 a.C. O texto reflete a situação do povo judeu, fora de sua pátria, incompreendido e hostilizado por causa da fidelidade às suas leis. Os autores concebem que há dois tipos de pessoas: os justos que conhecem a Deus e os injustos ou ímpios que, além de não o conhecerem, zombam de quem lhes é fiel.

Para além da relação conflituosa entre os judeus e os estrangeiros, o texto nos inspira a refletir sobre os efeitos que a prática da justiça pode causar. O modo de pensar e de se comportar das pessoas justas incomoda os injustos. Ao ler todo o capítulo 2 do livro da Sabedoria, percebemos que os justos estão convencidos de que Deus recompensará a quem segue o caminho de santidade. Sentem--se protegidos por Deus e gloriam-se de tê-lo por pai. Os ímpios, ao contrário, concebem a vida – já que é passageira – como uma oportunidade de satisfazer os instintos egoísticos.

Oprimem o pobre e agem com prepotência, a ponto de colocar à prova a fidelidade dos justos, através de calúnias, perseguições e até de condenação à morte. Nesse sentido, o texto chega a ser uma prefiguração de Jesus Cristo.


2. Evangelho (Mc 9,30-37): Jesus: o justo incompreendido

Jesus encontra-se em caminho para Jerusalém, onde será condenado à morte. Os discípulos ainda não compreendem que tipo de Messias é Jesus. Para eles, está sendo muito difícil mudar de mentalidade. O evangelho de Marcos mostra que esse caminho para Jerusalém indica o processo de formação pelo qual os discípulos devem passar. O próprio Jesus é o formador. Com paciência e dedicação, procura abrir os olhos dos discípulos para que o reconheçam como o servo de Deus e não como um rei poderoso.
Por três vezes Jesus anuncia que vai a Jerusalém, onde deverá sofrer e morrer. O texto deste domingo refere-se ao segundo anúncio.

O primeiro anúncio foi refletido no domingo passado. Em cada um dos anúncios há uma reação dos discípulos demonstrando que não estão entendendo o ensinamento de Jesus. E estão com medo de perguntar. Talvez estejam lembrando da forte repreensão que Jesus deu a Pedro quando o chamou de “satanás” por tentar impedi-lo de cumprir sua missão até o fim. Eles têm medo das exigências de Jesus.

Persistem na sua ambição de poder. Seguem a Jesus discutindo quem seria o maior entre eles. Essa aspiração à grandeza e ao prestígio popular era bem evidente entre os líderes religiosos e entre os políticos. Vestiam-se e comportavam-se em sociedade para chamar a atenção sobre si; buscavam sempre os primeiros lugares... Jesus já havia chamado a atenção dos discípulos: “Cuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus
e do fermento de Herodes” (Mc 8,15). Mas parece que não adiantou. Ao invés de seguir o exemplo de Jesus, eles seguem a ideologia dos poderosos. Ao invés de serem servos uns dos outros, preferem disputar entre si.

O momento é propício para uma instrução especial. Ao passar por Cafarnaum, Jesus entra na casa e, após perguntar aos discípulos sobre o que estavam discutindo pelo caminho, ele se senta. É a posição de mestre.

Essa casa de Jesus representa as comunidades cristãs no tempo em que Marcos está escrevendo. Também
essas comunidades são identificadas como “o caminho”. Ao ressuscitar, Jesus permanece no meio delas, caminhando junto e ensinando-as através do seu Evangelho. Jesus está na casa. Chama os doze para junto de si. Não é porque eles estão distantes fisicamente, mas porque estão resistindo de seguir verdadeiramente a Jesus. Por isso, o ensinamento que ele vai ministrar-lhes agora é de muita importância: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”.

E para que não esquecessem jamais dessa lição, Jesus ilustra seu ensinamento tomando uma criança e colocando-a no meio. Mais uma vez, ele revela a sua relação de carinho e de solidariedade para com os pequeninos, os desprezados e os marginalizados. A criança representa aqui todas as pessoas necessitadas que devem ser amadas, acolhidas, cuidadas e protegidas pelas comunidades cristãs em nome de Jesus. Para agir desse modo, é necessário que cada cristão abandone as aspirações de “ser o maior” e torne-se “servidor” dos pequeninos. Na criança, tudo é gratuidade. Assim, quem ama os pequeninos está amando o próprio Jesus e também o Pai que o enviou.


3. II leitura (Tg 3,16 – 4,3): A sabedoria que vem do alto

Nas comunidades cristãs primitivas, como também as de nossos dias, existem atitudes contrárias ao ensinamento de Jesus. Não foram somente os doze apóstolos que demonstraram muita dificuldade de entender e de seguir a Jesus. Através desse texto da carta de Tiago, percebemos que também no meio dos cristãos do final do primeiro século havia “inveja e preocupação egoística”. As consequências disso, conforme escreve Tiago, são as “desordens e toda espécie de más ações”: lutas, guerras, cobiça, avidez...

Tiago tem consciência de que isso não pode acontecer com quem se declara seguidor de Jesus. Percebe que essas atitudes são próprias de gente insensata que atrapalha a missão da Igreja neste mundo, que é anunciar o Evangelho não só através de palavras, mas de testemunho de amor mútuo. Como podemos sonhar com um mundo fraterno se, entre os próprios cristãos, existem divisões, invejas e busca de prestígio pessoal até sob a capa de piedade?

Diante dessas coisas, Tiago alerta aos cristãos para que orientem sua vida conforme a “sabedoria que vem do alto”. E esclarece como ela se manifesta: é pura, isto é, não contaminada com a ideologia do poder; é pacífica: alimenta-se da paz que vem de Deus e não promove divisões; é indulgente: relaciona-se com educação e respeito para com o próximo; é conciliadora: não age com orgulho ou com imposição, mas promove a união entre as pessoas; é cheia de misericórdia: acolhe e ama o outro buscando o seu bem com toda a sinceridade; é imparcial: não toma partido visando seu próprio interesse; é sem hipocrisia, isto é, age com transparência e honestidade, sem esconder-se sob a máscara da mentira ou das aparências enganosas... Sem dúvida, essa “sabedoria que vem do alto” é o caminho que Jesus trilhou nesta terra visando construir o Reino de Deus. É também o caminho para os cristãos de todas as épocas.


III. PISTAS PARA REFLEXÃO

– Há duas lógicas pelas quais podemos nos orientar: a do ímpio ou a do justo. O nosso modo de viver cotidiano demonstra qual delas nós seguimos. A vida do ímpio se caracteriza pela busca de satisfação de seus desejos, mesmo que para isso tenha que destruir a vida de outros. A pessoa justa tem a consciência de que é filha de Deus e age de acordo com essa condição. Sabe que Deus a ama e a protege. Esforça-se para ser fiel à vontade divina, mantendo-se livre da corrupção dos injustos e, por isso, pode ser perseguida e até morta. O que significa ser uma pessoa justa nesta sociedade em que vivemos, com tantos sinais de corrupção, de injustiça e de morte?

– Quem é Jesus para nós? Os discípulos manifestaram muita dificuldade para entender quem é Jesus porque se deixavam conduzir pela lógica dos ímpios e cada um queria ser maior do que os outros. Jesus os ajudou a mudar de mentalidade. Ele também nos ajuda para que sejamos servos uns dos outros. A casa em que Jesus se senta para ensinar os discípulos representa a comunidade cristã. Essa “casa” é o lugar onde aprendemos a ouvir e a praticar a Palavra de Deus a partir da família. Aí aprendemos a nos relacionar como irmãos, a nos respeitar mutuamente, a acolher e ajudar a quem mais precisa, a participar dos diversos serviços familiares e comunitários... Especialmente neste mês da Bíblia, podemos valorizar a importância da Palavra de Deus na igreja doméstica, nos grupos de reflexão, nas CEBs...

– É triste constatar que, muitas vezes, seguimos a lógica dos ímpios: em nossas comunidades cristãs, existem divisões, invejas e preocupações egoísticas. Precisamos nos converter! Tiago nos orienta para seguirmos o caminho da “sabedoria que vem do alto”. Em outras palavras, é o próprio Espírito de Deus que nos é derramado, para que sejamos puros, pacíficos, conciliadores, indulgentes, cheios de misericórdia, imparciais, sem hipocrisia...


FONTE: Revista Vida Pastoral – Paulus
Vida Pastoral – julho-agosto 2012 – ano 53 – n. 285
http://www.paulus.com.br/institucional/index.php?option=com_periodico&controller=periodico&task=periodico_detalhes&id_periodico=93#periodicomenu



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