segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O CANTO GREGORIANO á serviço da Igreja. "Quem canta, reza duas vezes!"

CAPÍTULO VII
O canto dos fiéis.


(Confissões - Santo Agostinho)

Os corpos de São Gervásio e de São Protásio
Não havia muito tempo que a igreja de Milão começara a adotar essa prática consoladora
e edificante do canto, com grande regozijo dos fiéis, que uniam em um só coro as vozes e o
coração. Havia um ano, ou pouco mais, que Justina, mãe do imperador Valentiniano, ainda
menor, seduzida pelos arianos, perseguia, por causa de sua heresia, teu servo Ambrósio. O povo
fiel passava as noites na igreja, disposto a morrer com seu bispo.
Nesse meio estava minha mãe, tua serva, uma das primeiras no zelo dessas inquietações
e vigílias, não vivendo senão de orações. Nós, apensar de ainda frios, sem o calor de teu Espírito,
nos sentíamos comovidos pela perturbação e consternação da cidade.
Foi então que se fixou o costume de cantar hinos e salmos, como se faz no Oriente, para
que os fiéis não se consumissem no tédio e na tristeza. Desde esse dia esse costume mantevese,
e no resto do mundo, quase todas as tuas comunidades de fiéis passaram a adotá-lo.
Foi também nessa época que revelaste em sonho ao bispo Ambrósio o lugar em que
jaziam ocultos os corpos dos mártires Gervásio e Protásio, que durante muito tempo,
conservastes intactos no tesouro de teus segredos, a fim de revelá-los no momento oportuno para
refrear o furor de uma mulher, embora imperatriz.

Com efeito, depois de descobertos e desenterrados, ao serem transladados com as honras
convenientes para a basílica ambrosiana, alguns possessos, atormentados pelos espíritos
imundos, foram curados, conforme confissão dos próprios demônios. Também um cidadão, cego
havia muitos anos, e muito conhecido na cidade, perguntou a razão daquele alvoroço e alegria
populares; informado, pediu a seu guia que o levasse até ás relíquias. Lá chegando, obteve
permissão para tocar com um lenço o ataúde de teus santos, cuja morte havia sido preciosa a
teus olhos. Feito isto, aplicou o lenço aos olhos, que imediatamente se abriram.
A noticia do milagre logo se propagou, e imediatamente se ouviram teus louvores com
fervor, e o coração de tua inimiga, sem se converter à tua fé, reprimiu contudo o furor da
perseguição.
Graças te dou, meu Deus! De onde e para onde guiaste minha memória, para que também
te confessasse estes acontecimentos que, embora grandes, eu já havia esquecido e omitido?
Todavia, quando assim exalava o odor de teus perfumes, eu ainda não corria atrás de ti.
Eis que redobrava minhas lágrimas ao ouvir teus cânticos. Outrora eu suspirava por ti, e enfim
respirava o pouco ar de uma choça de feno (alusão ao profeta Isaias,40,6)

Do Livro de Santo Agostinho - Confissões

A ARTE AO SERVIÇO DA ORAÇÃO, NO CANTO GREGORIANO

“No Canto Gregoriano, o texto fornece ao homem o alimento necessário ao espírito, a música traz-lhe o alimento de que o seu coração precisa. Assim, ambos contribuem, em conjunto, para uma completa expansão do ser humano nas suas relações com Deus” (Le Guennant).
“A música religiosa não é um complemento, ou um ornamento exterior, é a vida da própria oração, tomando a forma completa; está ligada à palavra, como a palavra ao pensamento, o pensamento à alma e a alma a Deus” (Rev. P. Sertillages, in: «Prière et Musique», p. 12).

A MÚSICA E O CANTO NA IGREJA NASCENTE

O cristianismo nasceu da religião judaica, e foi dos judeos que recebeu: a Bíblia do Antigo Testamento, elementos de cerimonial religioso, salmos e hinos, bem como o costume de cantar nas assembléias em oração. Escreveu São Paulo numa de suas cartas: "Louvai a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef 5,19; Cl 3,16)". Logo, a Igreja nascente cantava.
Com o mistério da fé centrado no Cristo, aos poucos foi criado seu repertório próprio e independente. Com a difusão do cristianismo no mundo helênico e no Império Romano, novos elementos culturais foram assimilados pelo canto dos cristãos. Lentamente a Igreja foi realizando maravilhosa sintese de três culturas bem diversas, conseguindo admirável unidade artística. A cristalização do repertório deu-se com o correr de vários séculos. O resultado foi a maravilha que conhecemos com o nome de Canto Gregoriano.

CANTO GREGORIANO - DEFINIÇÃO

O Canto Gregoriano é um gênero de música vocal monofônica, monódica (só uma melodia), não acompanhada, ou acompanhada apenas pela repetição da voz principal com o organum, com o ritmo livre e não medido, utilizada pelo ritual da liturgia católica romana, a ideia central do cantochão ocidental.
As características foram herdadas dos salmos judaicos, assim como dos modos (ou escalas, mais modernamente) gregos, que no século VI foram selecionados e adaptados por Gregório Magno para serem utilizados nas celebrações religiosas da Igreja Católica.
Somente este tipo de prática musical podia ser utilizada na liturgia ou outros ofícios católicos. Só nos finais da Idade Média é que a polifonia (harmonia obtida com mais de uma linha melódica em contraponto) começa a ser introduzida nos ofícios da cristandade de então, e a coexistir com a prática do canto gregoriano.
Desde seu surgimento que a música cristã foi uma oração cantada, que devia realizar-se não de forma puramente material, mas com devoção ou, como dizia Paulo (Apóstolo): "cantando a Deus em vosso coração". O texto era, pois, a razão de ser do Canto Gregoriano. Na verdade, o canto do texto se baseia no princípio - segundo Santo Agostinho - de que "quem canta ora duas vezes".
O canto Gregoriano jamais poderá ser entendido sem o texto, o qual tem primazia sobre a melodia, e é quem dá sentido a esta. Por isso, ao interpretá-lo, os cantores devem haver compreendido bem o sentido dele.
Em consequência, deve-se evitar qualquer impostação de voz de tipo operístico, em que se busca o destaque do intérprete.
Deste canto procedem os modos gregorianos, que dão base à música ocidental. Deles vêm os modos maior (jônio) e menor (eólico), e outros cinco, menos conhecidos (dórico, frígio, lídio, mixolídio e lócrio).

CANTO GREGORIANO CONTINUA SENDO O CANTO OFICIAL DA LITURGIA ROMANA

Entrevista com a pesquisadora e musicista Julieta Veja García
MÉXICO, D.F. terça-feira, 13 de junho de 2006 (ZENIT.org-El Observador).- O canto gregoriano continua sendo o canto oficial da Igreja Católica de rito latino, recorda Julieta Veja García, licenciada em Filosofia e Letras -especialidade em História da Arte- e doutora em Geografia e História dentro da área de Musicologia.
É titulada profissional como professora de piano pelo Conservatório Superior de Música de Granada (Espanha) e diretora da "Schola Gregoriana llíberis" desde 1986.
Suas linhas de investigação se centram no Canto Gregoriano: patrimônio, teoria e prática, e a música nos conventos de clausura e outros meios eclesiásticos.

— O que é o "Canto Gregoriano"?

Julieta Vega García: É um canto milenar, patrimônio cultural da humanidade e continua sendo o canto oficial da liturgia romana, como recordou o próprio João Paulo II em 2003 em um Quirógrafo sobre a música sacra - por ocasião do centenário do Motu Proprio "Tra lê sollecitudini", em que recordava as normas do Vaticano II acerca da música litúrgica.

— Por que se chama assim?

Julieta Vega García: Porque se atribui sua autoria ao Papa São Gregório Magno. Um dos pontos que mais chamam a atenção em seu fecundo pontificado é seu zelo pelo aperfeiçoamento da liturgia, alcançando grande importância seu impulso na organização definitiva do canto litúrgico, que se conhece sob o nome de canto gregoriano. Aos 35 anos, ele começou a dedicar-se ao serviço de Deus. A ele se deve a primeira grande reforma da Liturgia, de maneira especial do canto (daí o nome de canto gregoriano, que está na base da liturgia ocidental).

— Quando surgiu o Canto Gregoriano?

Julieta Vega García: Sua origem está na salmodia judaica, mas as primeiras partituras que se conservam foram escritas no Renascimento Carolíngio, no final do século IX.

— Qual é a relação entre o Canto Ambrosiano e o Canto Gregoriano?

Julieta Vega García: Antes da unificação que se produziu nos séculos IX-XI, cada região tinha suas próprias tradições: o Ambrosiano em Milão, o visigótico-mozárabe na Espanha, o velho romano, o galiciano… O gregoriano parece ser uma síntese entre galicano e velho romano. Em determinadas peças, há muita relação entre o Ambrosiano e o Gregoriano, mas o ambrosiano é um pouco mais ornamentado melodicamente.

— Existe atualmente produção de Canto Gregoriano? Qual é a aceitação social que se lhe outorga?

Julieta Vega García: Realmente a produção (entendida como composição) é inexistente. Há boa aceitação social deste antigo repertório, tanto em concertos como em missas, conferências, assistência e cursos, compra de música gravada, entre outros tipos de consumo.

CARACTERÍSTICAS DO CANTO GREGORIANO

Características do Canto Gregoriano

- É uma música vocal, isto é, que é cantada a capela, sem acompanhamentos de instrumentos;

- Se canta a "unísono", uma nota de cada vez, ou seja, que todos os cantores entoam a mesma melodia. Muitos autores afirmam que não deveria admitir-se o canto de coro misto, por que se estaria interpretando a duas vozes em oitava. Porém, é justo que, tanto homens, como mulheres e crianças, devem ter igual oportunidade de participar da Liturgia, recomendam que, para não interromper este princípio "unísono", o façam de forma alternada; (Rítmo)

- Se canta com rítmo livre, segundo o desenrrolar do texto literário e não com esquemas medidos, como poderiam ser os de uma marcha, uma balada, uma valsa ou até uma sinfonia;

- É uma música de molde escrita em escalas de sons muto particulares, que servem para despertar variados sentimentos, como recolhimento, alegria, tristeza e serenidade; (Modos)

- Sua melodia é silábica se a cada sílaba do texto corresponde um som e é melismática quando a uma sílaba corresponde a vários sons. Há melismas que contém mais de 50 notas para uma só sílaba.

- O texto deve estar em latim, lingua do Império Romano, extendida difundida pela Europa. Estes textos foram retirados dos Salmos e outros Livros do Antigo Testamento; alguns provem dos Evangelhos e outros eram de insperação própria, geralmente anônima. Não obstante, existem peças liturgicas em lingua grega: Kyrie eleison, Agios o Theos (Liturgia de Viernes Santo)...

- Escrita: O Canto Gregoriano esta escrito sobre tetragramas, ou seja, quatro linhas, diferente da música atual que é escrita em pentagrama. Suas notas se denominam "ponto quadrado (punctum quadratum)"; (Notação)

COMPOSITORES

Quem foram seus compositores?

Os compositores das melodias gregorianas são quase sempre anônimos. Compunham para a "glória de Deus", e não para promoção pessoal. O que percebe é que são melodias nascidas de almas de mística profunda, que viviam na comtemplação da grandeza, da majestade e da bondade de Deus infinito.

O resultado foi a expressão da beleza na simplicidade, que tem impressionado os homens de todos os tempos. Todos precisam de Deus e mostram-se agradecidos quando alguém o aproxima nas formas singelas e acessíveis. Isso explica o vigor com que renasceu o interesse pelo Canto Gregoriano nesses últimos tempos. Lembra mesmo a palavra do salmista: "A minha alma tem sede de Deus (Sl 42, 3)".

FONTES FORMADORAS DO CANTO GREGORIANO

Fontes formadoras

As fontes formadoras do Canto Gregoriano foram principalmente as seguintes:

1) O canto ritual dos judeus, que contribuiu com o estilo de cantar "melismático", isto é, enfeitado. Ocorre principalmente no "jubilus", que é a parte de longos e variados vocalizos nos "Alleluia" do "Proprium" das missas.

2) Os "modos" dos gregos. Da grande vaiedade existente, a Igreja se fixou nos atuais 8 modos gregorianos.

3) O "cursus" da língua latina, que consiste na distribuição equilibrada dos acentos no discurso falado. No "cursus" não se toma como critério a sílaba tônica, mas a sílaba onga breve, à semelhança do que ocorre na métrica. Do "cursus" deriva o ritmo verbal, de vital importância no canto silábico. Há evidências de que as melodias gregorianas tiveram sua origem na extensão do acento da palavra latina. De onde se conclui ser grande equívoco passar as melodias gregorianas para a língua vernácula, onde os acentos são completamente diversos.

FRUTO DO ESTUDO DO CANTO GREGORIANO

“O estudo do Canto Gregoriano nos fará sentir os maiores prazeres artísticos, nos proporcionará grandes compensações espirituais e será um importante meio de apostolado, se pudermos e quisermos corresponder aos desejos Pontifícios com os mais belos louvores litúrgicos” (Chanoîne Coudray).

HISTÓRIA DA MÚSICA OCIDENTAL

1 - Introdução

O termo "medieval" vem da expressão latina "medium aevum" (época intermediária) dada pelos historiadores renascentistas ao período compreendido entre o desaparecimento do Império Romano e os novos interesses pela cultura greco-romana no século 15. O regime sócio-econômico predominante foi o feudalismo, caracterizado pela exploração da terra e por uma complexa hierarquia político-militar entre as pessoas. Este regime dividiu a Europa em minúsculos territórios. O fator de coesão era a Igreja Católica que, de fato, decidia o destino de todos.

É um engano qualificar este período como a "Idade das Trevas": ao contrário, a sua rica produção cultural sintetizou os conhecimentos greco-romanos, germânicos, árabes, judaico-cristãos, bizantinos, etc., manifestou-se em todas as áreas artísticas (arquitetura, marcenaria, artes visuais como pintura, escultura, vitrais, iluminuras etc., literatura como canções de gesta, romances de cavalaria, baladas, fábulas etc.) e continuou a investigar os princípios da ciência e da filosofia. Os seminários e conventos mantiveram gigantescas bibliotecas. Enfim, este período, mesmo com suas guerras, epidemias, fanatismos, misticismos, etc. preservou a civilização humana na sua integridade. O campo musical nos dá uma pequena mostra da riqueza cultural do período.

2 - Música religiosa medieval

As músicas mais antigas, que podemos executar com muita fidelidade, são os cantos gregorianos criados para o culto católico.
Da música cristã primitiva só nos restam os poemas, mas, mesmo assim, os pesquisadores percebem que a origem dos cânticos era muito diversificada:

• salmos e hinos religiosos dos judeus;
• canções profanas de outras culturas (Grécia, Roma, entre outras) adaptadas ao pensamento cristão
• criações próprias cristãs

Até o século 4, todos os fiéis participavam das várias cerimônias, cantando, batendo as mãos e os pés, dançando discretamente e até tocando instrumentos, tais como: harpa, saltério, órgão, trompete, sinos etc.

No século 5, a Igreja Católica, querendo uniformizar o seu culto em todos os lugares, tratou de desenvolver um estilo único e criar uma escritura musical exata. Para suplementar isto fundou a "Schola Cantorum", em Roma, onde os padres-compositores deveriam estudar. A partir de então um coro profissional passou a exercer todas as funções musicais nas cerimônias. Instrumentos não eram mais permitidos, pois foram considerados pelo clero, como terrenos ou demoníacos, enquanto a voz humana foi valorizada por ser uma criação divina. Mesmo assim, algum instrumento era utilizado, com ou sem autorização dos religiosos, para sustentar a correta afinação do coro. Depois de muitos debates, o canto gregoriano foi oficializado no início do século 7.

2.1 - Ars Antiqua - séculos 7 a 13

A música medieval denominada "Ars Antiqua" (arte antiga) é aquela que abrange desde o canto gregoriano até a invenção do moteto, dos séculos 7 ao 13.

2.1.a - Características

A música religiosa deste período é estreitamente ligada ao canto gregoriano que serve de base para todas as composições. Sua sonoridade é muito diferente da nossa realidade, mas, também por causa disto, os cantos gregorianos nos envolvem, criando um clima de tranquilidade e as primeiras experimentações do organum nos aparecem como curiosidades experimentais e ruidosas. Nesta época criaram a terminologia musical (incluindo o nome das notas), criaram a grafia e desenvolveram as primeiras teorias musicais ocidentais.

2.1.b - Canto Gregoriano - século 7

Gregório I, papa entre 590 a 604, e outros compilaram, compuseram e organizaram vários poemas e canções, que foram reunidos nos livros:

- Graduale (cantos solos e corais para todas as festas católicas)
- Kyriale (cantos para as partes fixas das missas)
- Antiphonale (cantos, hinos e orações dos monges)

Esta música tem as seguintes características:

- é o canto oficial da Igreja Católica;
- o texto é em latim;
- a importância é dada ao texto e não à música (objetivo é propagar a fé e não fazer um recital);
deve ser cantado, obrigatoriamente, só por homens (mas recentes pesquisas em conventos, descobriram milhares de cânticos compostos e interpretados por mulheres);
- não pode ter acompanhamento instrumental de qualquer espécie;
- é prosódico (um tipo de canto falado);
- melodias simples com pouca mudança de notas e uma tessitura menor que uma oitava;
- monofônico (uma única linha melódica);
- diatônico (escalas sem alteração cromática ou microtonal);
- modal (escalas de sete sons, ligeiramente diferentes das nossas escalas);
- o ritmo depende das palavras, portanto é livre de fórmulas de compasso;
- não tem preocupação com a dinâmica;
- o andamento, geralmente, é lento;
- os compositores são anônimos, pertencentes ao clero.

A melodia do canto gregoriano depende da forma do poema e se desenvolve numa linha quase que infinita, descendo e subindo por graus conjuntos e com raros saltos intervalares. Ela tem caráter sereno e é uniforme em suas nuances.
Não havia um regente, apenas os ensaiadores ou professores de canto que regiam o grupo com o rolo da partitura, apelidado de "solfa" (uma espécie de brincadeira com os nomes das notas - e daí vem a palavra "solfejo", treino melódico-rítmico). Escrevia-se a música com bico de pena de ponta quadrada e tinta em um rolo de pergaminho, de cor bege.
No século 19 esta música foi batizada, pelos monges de Solesmes (França), de "canto gregoriano", em homenagem àquele papa. Também recebeu o nome de "cantochão" ("cantus planus" em latim) no século 13, para diferenciá-lo do "canto mensurado", quando inventaram as figuras rítmicas.

HISTÓRIA DO CANTO GREGORIANO

A História do Canto Gregoriano pode dividir-se em quatro períodos principais:
1.– Período de formação: do começo da Igreja – sensìvelmente, desde o fim das perseguições (313) até S. Gregório Magno (590);
2.– Período de apogeu e de difusão: desde S. Gregório Magno (590-604) até ao século XIII – Notação da melodia e do ritmo;
3.– Período de decadência: do século XIII à primeira metade do século XIX;
4.– Período de restauro: da segunda metade do século XIX, até aos nossos dias (Chanoîne Coudray).

PRIMEIRO PERIODO

O canto Litúrgico da Igreja Católica foi constituído, no seu início, por elementos provenientes de origens diversas, das quais é difícil precisar a contribuição de cada uma delas. Porém, o que se pode notar é que as provenientes da sinagoga foram, evidentemente, bastante importantes e, que os primeiros cristãos utilizaram, certamente, nas suas assembleias, os Salmos e os cânticos Judaicos. Depois, à medida que as comunidades cristãs se multiplicaram – na Grécia e entre os Latinos, na Asia Menor e em Africa – novos elementos se juntaram às melodias primitivas, que assim se enriqueceram com a contribuição que lhes trouxe a diversidade cultural dessas civilizações.
À medida que o canto se aperfeiçoava, organizavam-se, pouco a pouco, as formas do Culto – a Liturgia – sob o impulso dos Bispos: no séc. IV estavam constituídas, em volta dos grandes centros de difusão, tais como Milão, Constantinopla e Roma. Mas chegou o momento em que a preocupação de unificar o canto obrigou os Pontífices Romanos (S. Dâmaso, séc. IV), a orientar as suas tendências e, assim, de etapa em etapa, se chegou a S. Gregório Magno.

SEGUNDO PERIODO

S. Gregório I – que a História cognominou de «S. Gregório Magno» – nasceu em Roma em 542, tendo ocupado a Cátedra de S. Pedro entre 591 e 604.
“S. Gregório foi admiràvelmente preparado para a sua obra musical, pela sua educação de nobre Romano, pela sua vocação Monástica, em que um dos principais serviços foi, precisamente, a organização da Liturgia, enfim, pelo seu génio musical. Segundo consta, S. Gregório teria composto, ele próprio (ou mandado compor) um certo número de peças, mas a sua principal acção foi, sobretudo:
–       colher, seleccionar, ordenar as peças e dar a cada uma o seu lugar no ciclo Litúrgico, para formar o repertório que constituiu o «Antifonário»;
–       reformar e levar à perfeição os cantos que se encontravam em uso;
–       fundar a «Schola Cantorum», escola superior de Música Sacra” (Chanoîne Coudray).
Foi desta fundação que nasceu a chamada Escola Romana, e foi devido à importância da obra realizada por S. Gregório Magno que o canto Litúrgico da Cristandade Latina se chamou «Canto Gregoriano».

Este canto espalhou-se por Inglaterra e, especialmente, em França (Escola Galicana), com Pepino o Breve e Carlos Magno: no reinado deste último, os diáconos Petrus e Romanus, enviados pelo Papa Adriano, fundaram as duas célebres Escolas de Metz e St. Gall. Havia também a Escola Ambrosiana (que já existia antes de S. Gregório Magno) e a Escola Mozárabe (sobre esta parte da História – respeitante à obra de S. Gregório Magno – têem interesse os artigos do Rev. P. Froger, O.S.B., in: «Musique et Liturgie», N.ºs 15, 18 ss, 1950.

TERCEIRO PERIODO
– CAUSA DA DECADENCIA:

·        1.– Abandono progressivo das tradições rítmicas; ·        2.– Influência, cada vez maior, da polifonia nascente;·        3.– Atribuição arbitrária de duração desigual às diversas formas de notas, em consequência da ignorância das origens da notação Gregoriana;·        4.– Mutilação (e arrastamento) das melodias, na sua execução;·        5.– O Renascimento, com o seu total desprezo por tudo quanto era Medieval;·        6.– O desconhecimento completo das qualidades do acento tónico Latino na época Eclesiástica, no fim do séc. IV d.C. (cf. Chanoîne Coudray).

De tudo isto, resultou, em 1614, a chamada «Edição Mediciana», por ter sido impressa na tipografia dos Médicis, em Roma, edição que foi o ponto de partida de inumeráveis edições abreviadas, em que o Canto Gregoriano se tornou irreconhecível…

QUARTO PERIODO
– O RESTAURO:

O restauro do Canto Gregoriano – que deve o seu ponto de partida ao restabelecimento da Liturgia Romana em França, em consequência dos trabalhos de Dom Prosper Guéranger (Abade de Solesmes) – caracteriza-se pelo regresso às fontes, aos manuscritos, e foi, principalmente, levada a cabo pelos monges Benedictinos de Solesmes. Esta restauração tem três aspectos diferentes: primeiro, melódica e rítmica e, depois, modal.

RESTAURAÇÃO MELODICA

Em 1847, foi descoberto o manuscrito bilingue de Montpellier, por Danjou, organista em Paris.
Em 1848, o P. Lambillotte reconstitui um precioso manuscrito de St. Gall, atribuído ao diácono Romanus.

Em 1850, publicação da Edição «Rémo-Cambranense» (ou «Cambraiana»), tentativa de restauração julgada insuficiente pelo P. Lambillotte, que se recusou a fazer parte da comissão encarregada de a preparar.
Em 1856, Dom Jausions – por ordem de D. Guéranger (Abade de Solesmes) – começou a examinar os manuscritos de França.
Em 1880, D. J. Pothier publicou a sua célebre obra «Les mélodies Grégoriennes», segundo a tradição.
Em 1883, é publicado o «Liber Gradualis», para as Missas.
Em 1891, é publicado o «Liber Antiphonarius», para o Ofício Divino.
Em 1889, Dom Mocquereau – discípulo de D. Pothier – lança a famosa publicação Solesmiana a «Paleografia Musical», na qual defende a obra de restauro de D. Pothier, reproduzindo, pela fotografia, os manuscritos, para permitir ao mundo conhecedor seguir os trabalhos de restauração e, consegue destruir – no plano científico e artístico – o crédito da «Edição Mediciana», cujo privilégio havia sido renovado ao editor Pustet, de Ratisbonne, em 1873 (Chanoîne Coudray).
Em 1890, Dom Mocquereau funda o atelier de Paleografia Musical, no qual Dom Joseph Gajard se tornou o seu principal colaborador.

Em 1903, S. Pio X confia a uma comissão especial, em Roma, a redacção de uma edição oficial, baseada nos trabalhos de Solesmes: essa edição – chamada «Vaticana», por ter saído da Imprensa do Vaticano – apareceu em 1907, com o «Graduale» e, em 1912, com o «Antiphonale».
Um decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, datada de 2-ABR-1911, autorizou Solesmes a empregar, na Edição Vaticana, os sinais rítmicos, cuja autenticidade era indiscutível. É sob essa forma que ela é, geralmente, mais utilizada, embora, em certos meios, prefiram ainda a Edição Vaticana pura, ou seja, sem sinais complementares de espécie alguma.

RESTAURAÇÃO RITMICA

Depois dos trabalhos do Cón. Chantier, em 1859, e dos de D. Pothier, Dom Mocquereau publica a importante obra «Le Nombre Musical Grégorien», em dois volumes, nos quais estuda o ritmo da melodia, o ritmo da palavra Latina e, finalmente, o acordo entre a melodia e o texto Latino.
A projecção da Escola de Solesmes e a difusão do método de interpretação tiveram, sobretudo na primeira metade e parte da segunda metade do séc. XX, uma enorme expansão, devido à criação de Escolas, entre as quais são de salientar:
–       o «Instituto Pontifício de Musica Sacra», em Roma (1910);–       a «Escola S. Pio X», em Nova Iorque;–       o «Instituto Gregoriano de Paris» (1923): a este último estiveram ligados, em França, a maior parte dos Centros de Estudos Gregorianos de província, que se fundaram desde então.
O Diretor do Instituto Gregoriano de Paris – Mr. Le Guennant – retomando a tese de Dom Mocquereau, publicou «Précis de rythmique Grégorienne», em fascículos, nos quais mostra a perfeita consonância com as leis que regem a interpretação da Música, sob todas as suas formas.
Dom Gajard, por seu turno, publicou várias monografias, séries de artigos na «Revista Gregoriana» e, em 1951, «La Méthode de Solesmes».

RESTAURAÇÃO MODAL

Grandes investigações foram feitas, no campo da Modalidade, começadas por D. Hesbert Desroquettes e continuadas por Mr. Henri Potiron, Professor do Instituto Gregoriano de Paris, em íntima ligação com Solesmes, seguidas, mais tarde, por Dom Pièrre Combe, O.S.B., responsável que foi pelo atelier de Paleografia de Solesmes e, actualmente, por Dom Daniel Saulnier, O.S.B., também este, monge de Solesmes.

Fonte:   http://www.catolicismoromano.com.br/content/view/1014/36/

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