quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Estudando a música litúrgica (Ens. 79 da CNBB) - Parte III


2. NOSSAS REFERÊNCIAS, NOSSAS FONTES DE INSPIRAÇÃO,
NOSSOS MODELOS



2.1. O CANTO BROTA DA VIDA

47. Por que se canta numa celebração litúrgica? Por que o canto, a música, a
dança têm aí tamanha importância? Importa responder bem a estas perguntas. Letristas e
compositores, cantores e instrumentistas, regentes ou animadores do canto, coreógrafos,
equipes de liturgia e assembléias, todos ganharemos em saber as razões do nosso cantar.
Todos lucraremos em poder desempenhar cada um o seu papel, com pleno conhecimento
de causa.

48. O Apóstolo Pedro insistia com os cristãos do seu tempo, em plena
perseguição, para que não se perturbassem, sempre prontos a dar a razão de sua
esperança (1Pd 3,15). No momento da celebração da fé, a comunidade cristã, sobretudo
através do canto, testemunha a sua esperança da maneira mais solene e vibrante, ao
proclamar, como assembléia sacerdotal, as obras maravilhosas daquele que nos chamou
das trevas para a sua luz maravilhosa (1Pd 2,9).


49. Trata-se evidentemente de celebrações, de cantos, que brotam das
profundezas do ser... celebrações e cantos que se enraízam nas emoções e aspirações
profundas dos que desejam a vida (Sl 34,13), dos que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6),
ao encontro das quais o Senhor vem (Lc 12,43; Ap 22,20).

2.1.1. Do grito de admiração ao aleluia da ação de graças

50. A vida é bela, como diz o canto popular:

Eu fico com a pureza da resposta das crianças:
é a Vida, é bonita e é bonita!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
cantar e cantar e cantar
a beleza de ser um eterno aprendiz!...
Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será,
mas isso não impede que eu repita:
é bonita, é bonita e é bonita!
Gonzaguinha

51. A beleza da vida encanta as crianças e os que, como as crianças, são
capazes de percebê-la a cada passo e da vida se tornar eternos aprendizes. Desta única
fonte, que é a Vida, brotam o sorriso e o canto. O sorriso de quem contempla e se deleita.

O canto de quem vibra e celebra.

52. O músico e liturgista J. Gelineau já observou: De quem canta
espontaneamente, se diz que ele ou ela está feliz. O canto é sinal de alegria. Mas de onde
vem esta alegria que leva a cantar? Ela nasce de um sentimento de plenitude no ser
vivente que se expande sem amarras... Diante da beleza que o arrebata, o ser humano
deixa subir de sua alma um grito de admiração. Ele sai de si mesmo com o som de sua
boca, para se deixar carregar até o objeto do seu louvor. Definitivamente, o canto é a
imagem viva do sacrifício espiritual.

53. Se, como dizia Santo Agostinho, cantar é próprio de quem ama, diante da
Divindade é possível que o primeiro sentimento seja mais de estupor, e a primeira atitude
seja cobrir o rosto, como Moisés (Ex 3,6); exclamar: Ai de mim, estou perdido!, como
Isaías (Is 6,5) ou: Afaste-se de mim, porque sou um pecador!, como Simão Pedro (Lc 5,8).
Mas, quando se vai estabelecendo uma relação de confiança entre o ser humano e o Deus
da Aliança, as expressões variam da admiração diante da majestade divina e do seu poder,
que leva ao canto de adoração (Sl 95/94), à admiração diante da beleza e da bondade da
criação, que inspira o canto de ação de graças (Sl 104/103); ou, finalmente, a admiração
diante do amor fiel e libertador do Senhor da História, que faz explodir o Aleluia dos
redimidos (Sl 146/145). E todos os recursos são utilizados para exprimir de maneira total
esse louvor:

Louvem a Deus tocando trombetas,
louvem-no com cítara e harpa!
Louvem a Deus com dança e tambor,
louvem-no com cordas e flauta!
Louvem a Deus com címbalos sonoros,
louvem-no com címbalos vibrantes!
(Sl 150,3-5)

54. Trata-se de uma ação de graças, de um louvor que vai muito além da
simples gratidão, do mero agradecimento. É o testemunho solene, a confissão pública de
que o Senhor é o único Deus verdadeiro, o único Senhor e Salvador, o único que merece
ser louvado, bendito e adorado por sua santidade, grandeza, justiça, bravura e poder,
manifestados em obras admiráveis, realizadas em favor do seu povo.

55. Essa é a tônica maior do livro dos Salmos, que desemboca nos cânticos do
Novo Testamento, marcadamente nas três louvações em grande estilo reportadas por Lucas
logo no início do seu Evangelho, às quais já nos referimos acima e voltaremos depois.

56. Mas é o próprio Jesus Cristo quem fecha com chave de ouro este ciclo de ação
de graças, quando, na véspera do dia de sua morte, se reúne com seus discípulos, para tomar
com eles a Ceia da Páscoa. Celebrando a libertação definitiva do seu Povo, Jesus se
apresenta como o novo Cordeiro Pascal, que oferece seu corpo e sua vida, dos quais o pão
repartido entre todos passa a ser o Sacramento... e apresenta seu Sangue como Sangue da
Nova e Eterna Aliança, do qual o vinho partilhado entre todos se torna igualmente
Sacramento... E ele faz isso dando graças ao Pai, pois Deus amou de tal forma o mundo, que
entregou o seu Filho único (Jo 3,16) e lhe deu esse poder de dar a vida... e de retomá-la (Jo
10,18). Jesus nos manda, então, celebrar estas coisas em sua memória (1Cor 11,24-25). E,
depois de terem cantado os salmos, foram para o monte das Oliveiras (Mt 26,20). É claro que,
a partir de então, Jesus e os seus discípulos deram aos Salmos de sempre, e a todos os cantos
que vierem a ser compostos para a assembléia cristã, a dimensão essencial e terminal de todo
louvor: ser a expressão da entrega de nossas vidas em Cristo, pela causa do Reino, para a
glória de Deus Pai (Fl 2,11). A partir de então, se inaugura o Cântico Novo dos Redimidos da
terra (Ap 5,9), a ação de graças definitiva.

9 J. GELINEAU, Chant et Musique dans le Culte Chrétien, Flerus, Paris, 1962, p. 19.
14

REFLETINDO:

57. • Como autores ou compositores, como agentes litúrgico-musicais, até onde
vai nossa capacidade de contemplação e admiração diante do milagre da Vida, do
encanto da Natureza e da “passagem” de Deus na História?

• Nosso louvor é fruto do nosso encantamento diante das maravilhas da
Criação?

• Nossa poesia emana da contemplação prazerosa da ação de Deus na vida das
pessoas e na história dos povos?

• Ou nos contentamos com a repetição medíocre de chavões desbotados e
enfadonhos e não conseguimos esconder nosso vazio e nossa superficialidade?

Um comentário:

  1. Este post é um estudo da música litúrgica no Brasil. Não quer dizer que eu concordo com tudo o que está descrito. Discordo respeitosamente em relação a dança litúrgica. A dança não inclui em documentos litúrgicos como o Sacrosanctum Concilium, e há uma pergunta logo no início do post: "Por que o canto, a música, a dança têm aí tamanha importância?".. O canto e a musica sim, mas a dança não tem se quer alguma importância. Isto é mera ideologia litúrgica de mudanças na forma de realizar a celebração. Por tanto, documentos litúrgicos de Roma não menciona dança na liturgia da missa. Dúvidas? comprove.

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