sábado, 4 de agosto de 2012

São João Maria Vianney : "Eu serei padre! Eu serei padre! ... E foi!"


Com sua fervorosa vida de oração e seu apaixonado amor a Jesus Crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua cotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja.

São João Batista Maria Vianney, uma das mais prodigiosas glórias do clero da França, nasceu em Dardilly, perto de Lião, no dia 8 de maio de 1786, tendo sido batizado no mesmo dia.

Nesta semana conheceremos a vida de São João Maria Vianney conhecido também como o Cura D'Ars. Padroeiro dos sacerdotes graças a sua intensa vida de piedade, pois apesar da sua pouca inteligência mostrou ao mundo que a verdadeira sabedoria está em Cristo Jesus.

Filho de Mateus Vianney, agricultor e de Maria Belusa, teve cinco irmãos, todos consagrados solenemente a Nossa Senhora antes do nascimento. Eram eles Catarina, Joana Maria, que desapareceu aos cinco anos, Francisco, Margarida e um outro Francisco, que cognominaram o Caçula.

Filho de pais cristãos, João Batista desde a mais baixa idade foi piedoso, doce e bom. A mãe, um dia, deu-lhe uma imagem de Maria, e o menino predestinado jamais a largava. Carregando-a respeitosa e ternamente nos braços para onde quer que vissem, assim pensava ele, costumava rezar diante dela, demorada, e compenetradamente, já como um sacerdotezinho.

Logo principiou a ensinar aos companheiros as lições de religião que aprendia dos pais, às vezes mesmo os adultos, muito sério, muito seguro de si mesmo, inspirado.
Com a Revolução invadindo as províncias, viveu dias tristes: as igrejas fechadas, melancolicamente vedadas ao povo, consternavam-no, e os padres, perseguidos, aqueles padres heróicos, destemerosos que, pela verdade, diziam missas clandestinas no mais espesso dos bosques, dando Jesus aos homens, enchiam-lhe a almazinha de admiração e dum certo desassossego, duma ânsia incontida para as coisas de Deus.
Com efeito, data daqueles tempos agitados, de grandes desordens, de morte, de medo e de fome, o rumo que se propôs tomar: caráter já temperado, teve o zelo dirigido para a salvação das almas, inflamado.
De estranha predileção pelos pobres, pelos abandonados que nada possuem, nem comida nem carinho, reunia-os pelos caminhos, pelos bosques, ao longo dos valados, e, alegremente, levava-os para casa, onde os pais, reputados desde há muito pela caridade, acolhiam a todos os desventurados com um largo sorriso que espantava constrangimentos.

Aos treze anos, com um fervor fora do comum, João Batista radiantíssimo fez a primeira comunhão. E o bom menino, com Jesus no coração, no coração imenso, dizia baixinho, para si mesmo, como se fora a mais doce das melodias embaladoras:
Eu serei padre! Eu serei padre! ... E foi!
Afoitamente, disse-o ao pai. Mas o pai, homem prudente e conhecedor da vida e dos arroubos da juventude, fê-lo esperar dois anos, para observá-lo para experimentá-lo.
Era nos tempos do Diretório, aquela época de agitação política agravada pela penúria das finanças e da economia nacional, época de dissolução dos costumes, não só porque os homens procuravam nos prazeres o esquecimento das amarguras passadas e dos perigos a que se haviam expostos, como pelo dinheiro que alguns amontoavam com a compra de bens nacionais e com os fornecimentos militares, dinheiro fácil, que levava ao luxo, à ostentação, à vaidade e a depravação.
Afinal, João Batista entrou na escola fundada pelo abade Balley, cura, então, de Ecully.
O jovem Vianney foi aluno que fez progressos lentos, embora se esforçasse desesperadamente. E, para obter bons resultados, mortificava-se para conseguir a ajuda do céu.

Em 1807, com vinte e um anos, João Batista foi confirmado pelo arcebispo de Lião, o Cardeal Fesh, tio de Napoleão.
Aspirante ao sacerdócio, livrou-se do recrutamento militar. Adoentado, vagou de hospital em hospital. De volta aos estudos, fez o primeiro ano de filosofia, de 1812 a 1813, no pequeno seminário de Verrières.
Seminarista modelo, mas aluno bastante enfermiço, a poder de orações foi conseguindo abrir caminho, até que se viu no seminário maior de Santo Irineu de Lião. Ali, brilhou só pelas virtudes.
Ordenado padre a 13 de agosto de 1815, por Simão, bispo de Grenoble, estava com vinte e nove anos. Nomeado vigário de Ecully, ali esteve por três anos. Teve então, oportunidade de rever, e com calma, toda a sua teologia.

Designado para Ars, que ficava a trinta e cinco quilômetros ao norte de Lião, chegou no lugar que ilustraria por um rígido inverno, aquela Ars que o teria por quarenta e dois anos, ou seja, até o dia em que, deixando a terra, iria para Deus. Era o ano de 1818.
João Batista foi direto para a igreja. Caindo de joelhos, ficou, por longo tempo, abismado em adoração.
Os habitantes de Ars, quanto à religião, viviam indiferentes, embora constituíssem boas famílias. João Maria pôs-se imediatamente ao trabalho. E, à ação do santo cura, tudo, a pouco a pouco, foi-se transformando.
Cinco anos depois, Ars apresentava-se com outra fisionomia: o trabalho que era executado aos domingos, foi totalmente abolido. A blasfêmia, que campeava, louca, pelo lugar, desapareceu. O vício da embriaguez, do qual grande parte dos homens era presa, foi afastado. E as danças inconvenientes, desenfreadas, paulatinamente foram sendo extirpadas do curato. Para ganhar tal batalha, quanta fadiga, quanto jejum, quanta súplica, quanta oração!

Bem antes do raiar do dia, João Batista levantava-se e ia postar-se diante do tabernáculo. E ali, ajoelhado, silenciosa, ardentemente, rogava ao Senhor, com instância, que lhe convertesse aquelas almas afastadas do aprisco.
Disciplinando-se até o sangue, descansava exposto ao sol, dormia sobre duros sarmentos. E, quando tudo começou a melhorar, eis que, de repente, principiaram as calúnias dos mal formados. Disto, porém, o santo cura devia sair-se perfeitamente bem.
As perseguições dos homens, juntaram´se as do demônio. E a luta que travou com o espírito do mal terrível, durou-lhe trinta e cinco anos: iniciada em 1824, terminaria um ano antes da morte.
Fantasmas horrendos, balbúrdias infernais, insultantes vociferações horríveis transformavam o curato, durante a noite, num verdadeiro inferno, em medonhos pesadelos de febrentos. Vê-se ainda, em parte, os traços do fogo que lhe destruiu a cama de madeira.
Sustentado, porém, por graças divinas, João Batista Maria Vianney saiu vitorioso de todos os assaltos. E a Virgem, cuja imagem embalara na infância, aparecendo-lhe, dulcíssima, com ele se entretinha, meigamente encorajando-o.

Diz-se de São João Batista Maria Vianney que, ao dizer, todos os dias, a santa missa, via a Nosso Senhor.
A igreja, velha, restaurou-a. Capelas, edificou-as muitas - tudo para honra de Deus e bem dos fiéis.
Deus concedeu-lhe o dom dos milagres. E os milagres que operava, atribuía-os à Santa Filomena, sua celeste amiga, chamada taumaturga do século XIX, cuja história principiou a aparecer em 1802, ano em que se lhe descobriram as relíquias na catacumba de Priscila, na via Salária.
Em 1820, Vianney foi nomeado cura de Salles, em Beaujolais. Por toda Ars a consternação foi grande. E o povo, que não se conformava com a ideia de ver o santo homem afastado do lugar, entrou a suplicar para que não o levassem da comunidade. Atendidas as ovelhas, a alegria voltou a reinar em Ars.
Em 1824, uma escola popular gratuita foi aberta pelo bom cura, destinado às meninas. Logo, um orfanato apareceu contíguo. Trabalhador incansável, ninguém reconhecia na Ars daqueles tempos de São João Batista Maria aquela Ars abandonada, desorganizada e blasfema de outrora.

O programa diário do santo cura era exaustivo: de madrugada, precisamente à uma, ia a igreja para orar; antes da aurora, confessava as mulheres; às seis de verão, às sete quando no inverno, celebrava a santa missa; depois da ação de graças, os peregrinos rodeavam-no, implorando bençãos, curas, palavras de conforto, rumo a seguir, conselhos para os mais variados casos, conversões deste ou daquele ente querido, parente, amigo ou companheiro de trabalho; às dez horas, recitava as pequenas horas do seu velho amigo breviário inseparável, depois do que ia sentar-se, novamente, no confessionário; às onze era o catecismo, aquele catecismo que ficou famosos; depois do almoço, como diríamos nós, de passarinho, era a clássica visita aos doentes, quando, então, a multidão se comprimia, afoita, para vê-lo passar, para tocar-lhe as vestes, multidão que o Santo, compadecido pela dedicação que lhe votava, docemente abençoava; depois de ter dito as vésperas e as completas, eis, pela terceira vez, a penumbra ciciante do confessionário, onde, muitas vezes, ficava até altas horas da noite.
Que desvelo para com os pecadores! Quantas conversões, muitas das quais, reputadas impossíveis foram pelo santo cura realizadas! Que dom o de descobrir, entre a multidão amorfa, os grandes pecadores! Chamava-os, então, docemente, e docemente falava-lhes das coisas de Deus, belas, e das coisas do demônio, horríveis.

À oração da noite, tão emocionante, toda gente chorava. Aos domingos, à missa, invariavelmente, pregava.
Tão grande era a fila dos peregrinos que o buscava, que houve necessidade, um dia, de um padre da vizinhança vir ajudá-lo: era o padre Raimundo, que, a partir de 1845, tornou-se seu vigário. Em 1850, João Batista Maria foi distinguido com o canonicato: vendeu, então, a sua murça em proveito dos pobres. Dois anos depois, era agraciado com a Cruz da Legião de Honra, o que recusou, uma vez que era necessário aplicar uma soma de dinheiro que preferia ver reservada para esmolas.
Corria o ano de 1853. Quando o padre Toccanier substituiu o padre Raimundo como auxiliar de São João Batista Maria Vianney, o santo, desejoso de se retirar para poder "chorar a pobre vida", resolveu deixar Ars.
Foi um episódio pungente! O rebate soou. O povo barrou-lhe a caminho, levou-o à igreja. E o Santo, submisso à vontade de Deus, para alívio da multidão, que dava graças ao Altíssimo, continuou no posto, naquele posto que só a morte o havia de afastar. E, quando morreu, a desolação foi indescritível. Era no dia 4 de agosto de 1859 e estava com setenta e três anos.

Os peregrinos e os paroquianos desfilaram diante do corpo daquele Santo que se fora para o Santo dos Santos por quarenta e oito horas, sem interrupção. Chegado a mais sublime perfeição, ao mais alto grau de união mística, angélico, só, por toda Ars, se falava das virtudes do bom João Batista Maria, da bondade, paciência, humildade, santidade, desvelo e caridade.
Taumaturgo imenso, o santo cura realizou milagres sem conta para amenizar os sofrimentos corporais e morais, em favor das misérias espirituais. Vivia ainda, e já o povo o proclamava santo.
Enterrado na sua igreja, João Batista Maria Vianney foi declarado venerável a 3 de outubro de 1872, por Pio IX. Beatificado pelo Papa São Pio X, a 8 de janeiro de 1905, foi instituído pelo mesmo pontífice padroeiro de todos os sacerdotes da França que se encarregam das almas. A canonização ocorreu em 1925, no dia 31 de maio, alguns dias depois da de Santa Teresinha do Menino Jesus.
Ars, rapidamente, tornou-se um dos grandes centros de peregrinação. Ali, magnífico santuário foi erigido, e o corpo do Santo, dessecado, mas inteiro, jaz num relicário. O coração, intacto, quando da exumação a 17 de junho de 1940, é venerado à parte.
(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XIV, p. 292 `a 299)

O exemplo do Santo Cura de Ars

O Cura d'Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto padre, um dom imenso para o seu povo: "Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina".
Falava do sacerdócio como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados a uma criaturahumana: "Oh como é grande o padre! [...] Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. [...] Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do Céu e encerra- Se numa pequena hóstia".

E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos Sacramentos, dizia: "Sem o Sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando- a pela última vez no Sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. [...] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! [...] Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no Céu".
Estas afirmações, nascidas do coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de responsabilidade sem fim: "Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. [...] Sem o padre, a Morte e a Paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra [...]. Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, se não houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus bens [...]. Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. [...] O padre não é padre para si mesmo, é-o para vós".

Santidade objetiva do ministério e santidade subjetiva do ministro

Tinha chegado a Ars, uma pequena aldeia com 230 habitantes, precavido pelo Bispo de que iria encontrar uma situação religiosamente precária: "Naquela paróquia, não há muito amor de Deus; infundi-lo-eis vós". Por conseguinte, achava-se plenamente consciente de que devia ir para lá a fim de encarnar a presença de Cristo, testemunhando a Sua ternura salvífica: Meu Deus,"concedei-me a conversão da minha paróquia; aceito sofrer tudo aquilo que quiserdes por todo o tempo da minha vida!": foi com esta oração que começou a sua missão. E, à conversão da sua paróquia, dedicou- se o Santo Cura com todas as suas energias, pondo no cume de cada uma das suas ideias a formação cristã do povo a ele confiado.
Amados irmãos no sacerdócio, peçamos ao Senhor Jesus a graça de podermos também nós assimilar o todo pastoral de São João Maria Vianney.


A primeira coisa que devemos aprender é a sua total identificação com o próprio ministério. Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a Sua ação salvífica era e é expressão do Seu "Eu filial" que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à Sua vontade. Com modesta, mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objetiva do ministério e a subjetiva do ministro.

O Papa Bento XVI venera o coração do Santo Cura d'Ars, São João Maria Vianney, na Capela do Coral da Basílica de São Pedro, antes da cerimônia de abertura do Ano Sacerdotal, em 2009
O Cura d'Ars principiou imediatamente este humilde e paciente trabalho de harmonização entre a sua vida de ministro e a santidade do ministério que lhe estava confiado, decidindo "habitar", mesmo materialmente, na sua igreja paroquial: "Logo que chegou, escolheu a igreja por sua habitação. [...] Entrava na igreja antes da aurora e não saía de lá senão à tardinha depois do Angelus. Quando precisavam dele, deviam procurá-lo lá" - lê-se na primeira biografia. [...]

"Todas as boas obras reunidas não igualam o valor da Missa"

O Santo Cura ensinava os seus paroquianos, sobretudo, com o testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário para uma visita a Jesus-Eucaristia. "Para rezar bem - explicava-lhes o Cura -,não há necessidade de falar muito. Sabe-se que Jesus está ali, no Tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso coração, alegremo-nos pela Sua presença sagrada. Esta é a melhor oração". E exortava: "Vinde à Comunhão, meus irmãos, vinde a Jesus. Vinde viver dEle para poderdes viver com Ele". "É verdade que não sois dignos, mas tendes necessidade!".
Esta educação dos fiéis para a presença eucarística e para a Comunhão adquiria uma eficácia muito particular, quando o viam celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Quem ao mesmo assistia, afirmava que "não era possível encontrar uma figura que exprimisse melhor a adoração. [...] Contemplava a Hóstia amorosamente".

Dizia ele: "Todas as boas obras reunidas não igualam o valor do Sacrifício da Missa, porque aquelas são obras de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus". Estava convencido de que todo o fervor da vida de um padre dependia da Missa: "A causa do relaxamento do sacerdote é porque não presta atenção à Missa! Meu Deus, como é de lamentar um padre que celebra [a Missa] como se fizesse uma coisa ordinária!". E, ao celebrar, tinha tomado o costume de oferecer sempre também o sacrifício da sua própria vida: "Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus todas as manhãs!".

"Círculo virtuoso" entre o altar e o confessionário

Esta sintonia pessoal com o Sacrifício da Cruz levava-o - por um único movimento interior - do altar ao confessionário. Os sacerdotes não deveriam jamais resignar-se a ver os seus confessionários desertos, nem limitar-se a constatar o menosprezo dos fiéis por este Sacramento.
Na França, no tempo do Santo Cura d'Ars, a confissão não era mais fácil nem mais frequente do que nos nossos dias, pois a tormenta revolucionária tinha longamente sufocado a prática religiosa. Mas ele procurou de todos os modos, com a pregação e o conselho persuasivo, fazer os seus paroquianos redescobrirem o significado e a beleza da Penitência sacramental, apresentando-a como uma exigência íntima da Presença eucarística.

Pôde assim dar início a um círculo virtuoso. Com as longas permanências na igreja junto do sacrário, fez com que os fiéis começassem a imitálo, indo até lá visitar Jesus, e ao mesmo tempo estivessem seguros de que lá encontrariam o seu pároco, disponível para os ouvir e perdoar. Em seguida, a multidão crescente dos penitentes, provenientes de toda a França, haveria de o reter no confessionário até 16 horas por dia. Dizia-se então que Ars se tinha tornado "o grande hospital das almas". [...]

Assimilar em si o "novo estilo de vida" inaugurado por Jesus

No mundo atual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d'Ars, é preciso que os presbíteros, na sua vida e ação, se distingam por um vigoroso testemunho evangélico.
Observou, justamente, Paulo VI que "o homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres; ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas". Para que não se forme um vazio existencial em nós e fique comprometida a eficácia do nosso ministério, é preciso não cessar de nos interrogarmos: "Somos verdadeiramente permeados pela Palavra de Deus? É verdade que esta é o alimento de que vivemos, mais do que o sejam o pão e as coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la? De tal modo nos ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um timbre à nossa vida e forma o nosso pensamento?".
Assim como Jesus chamou os Doze para estarem com Ele (cf. Mc 3, 14) e só depois é que os enviou a pregar, assim também nos nossos dias os sacerdotes são chamados a assimilar aquele "novo estilo de vida" que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos.

Os três conselhos evangélicos, necessários também para os presbíteros

Foi precisamente a adesão sem reservas a este "novo estilo de vida" que caracterizou o trabalho ministerial do Cura d'Ars. O Papa João XXIII, na carta encíclica Sacerdotii nostri primordia - publicada em 1959, centenário da morte de São João Maria Vianney -, apresentava a sua fisionomia ascética referindo-se de modo especial ao tema dos "três conselhos evangélicos", considerados necessários também para os presbíteros: "Embora, para alcançar esta santidade de vida, não seja imposta ao sacerdote como própria do estado clerical a prática dos conselhos evangélicos, entretanto esta representa para ele, como para todos os discípulos do Senhor, o caminho regular da santificação cristã".

O Cura d'Ars soube viver os "conselhos evangélicos" segundo modalidades apropriadas à sua condição de presbítero. Com efeito, a sua pobreza não foi a mesma de um religioso ou de um monge, mas a requerida a um padre: embora manejasse muito dinheiro (dado que os peregrinos mais abonados não deixavam de se interessar pelas suas obras sócio-caritativas), sabia que tudo era dado para a sua igreja, os seus pobres, os seus órfãos, as meninas da sua Providence, as suas famílias mais indigentes. Por isso, ele "era rico para dar aos outros e era muito pobre para si mesmo". Explicava: "O meu segredo é simples: dar tudo e não guardar nada". Quando se encontrava com as mãos vazias, dizia contente aos pobres que se lhe dirigiam: "Hoje sou pobre como vós, sou um dos vossos". Deste modo pôde, ao fim da vida, afirmar com absoluta serenidade: "Não tenho mais nada. Agora o bom Deus pode chamarme quando quiser!".

Também a sua castidade era aquela que se requeria a um padre para o seu ministério. Pode-se dizer que era a castidade conveniente a quem deve habitualmente tocar a Eucaristia e que habitualmente a fixa com todo o entusiasmo do coração e com o mesmo entusiasmo a dá aos seus fiéis.Dele se dizia que "a castidade brilhava no seu olhar", e os fiéis apercebiam- se disso quando ele se voltava para o sacrário fixando-o com os olhos de um enamorado.

Também a obediência de São João Maria Vianney foi toda encarnada na dolorosa adesão às exigências diárias do seu ministério. É sabido como o atormentava o pensamento da sua própria inaptidão para o ministério paroquial e o desejo que tinha de fugir "para chorar a sua pobre vida, na solidão". Somente a obediência e a paixão pelas almas conseguiam convencê-lo a continuar no seu lugar. A si próprio e aos seus fiéis explicava: "Não há duas maneiras boas de servir a Deus. Há apenas uma: servi-Lo como Ele quer ser servido". A regra de ouro para levar uma vida obediente parecia-lhe ser esta: "Fazer só aquilo que pode ser oferecido ao bom Deus".

Saber acolher os Movimentos Eclesiais e novas Comunidades

No contexto da espiritualidade alimentada pela prática dos conselhos evangélicos, aproveito para dirigir aos sacerdotes, neste Ano a eles dedicado, um convite particular para saberem acolher a nova primavera que, em nossos dias, o Espírito está a suscitar na Igreja, através nomeadamente dos Movimentos Eclesiais e das novas Comunidades. "O Espírito é multiforme nos seus dons. [...] Ele sopra onde quer. E fá-lo de maneira inesperada, em lugares imprevistos e segundo formas precedentemente inimagináveis [...]; mas demonstra-nos também que Ele age em vista do único Corpo e na unidade do único Corpo".
A propósito disto, vale a indicação do decreto Presbyterorum ordinis: "Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, [os presbíteros] perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dosleigos, tanto os mais modestos como os mais altos". Estes dons, que impelem não poucos para uma vida espiritual mais elevada, podem ser de proveito não só para os fiéis leigos, mas também para os próprios ministros. Com efeito, da comunhão entre ministros ordenados e carismas pode brotar "um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja no anúncio e no testemunho do Evangelho da esperança e da caridade em todos os recantos do mundo".

"Forma comunitária" do ministério ordenado

Queria ainda acrescentar, apoiado na exortação apostólica Pastores dabo vobis do Papa João Paulo II, que o ministério ordenado tem uma radical "forma comunitária" e pode ser cumprido apenas na comunhão dos presbíteros com o seu Bispo. É preciso que esta comunhão entre os sacerdotes e com o respectivo Bispo, baseada no Sacramento da Ordem e manifestada na concelebração eucarística, se traduza nas diversas formas concretas de uma fraternidade sacerdotal efetiva e afetiva. Só deste modo é que os sacerdotes poderão viver em plenitude o dom do celibato e serão capazes de fazer florir comunidades cristãs onde se renovem os prodígios da primeira pregação do Evangelho. [...]

"Eu venci o mundo"

À Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe para suscitar no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o pensamento e a ação do Santo Cura d'Ars. Com a sua fervorosa vida de oração e o seu amor apaixonado a Jesus Crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua cotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os leigos, que é tão necessário hoje, como o foi sempre.
Não obstante o mal que existe no mundo, ressoa sempre atual a palavra de Cristo aos Seus Apóstolos, no Cenáculo: "No mundo sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o mundo" (Jo 16, 33). A Fé no Divino Mestre dá-nos a força para olhar confiadamente o futuro.



Amados sacerdotes, Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d'Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo atual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz.
(Papa Bento XVI - Excertos da Carta para a Convocação do Ano Sacerdotal, de 16/6/2009)
(Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2009, n. 92, p. 6 à 9)


Fonte: http://blogcuradars.blogspot.com.br/p/santo-cura-dars.html

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