quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Latim na Liturgia da Igreja

O latim na liturgia e sua relação com o documento Sacrosanctum Concilium

O uso do latim na liturgia da Igreja está retido há anos por ser uma língua morta e reprovada pelo concílio Vaticano II? Errado. O latim sempre foi e é a língua oficial na liturgia da Igreja. O que acontece é que com o passar dos anos pós reforma litúrgica feita por este concílio, á língua bimilenar da liturgia da Igreja – o latim - foi abolida e deu lugar somente ao vernáculo (português). 
Em parte alguma deste documento, que digamos ser o documento por excelência da reforma litúrgica, fala da dissolução do latim, mas pelo contrário, pede-se para conservar o uso dele.

Vejamos então o que fala neste documento em relação á língua latina e o uso da língua vernácula (português):



A língua litúrgica: traduções

36. § 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.


§ 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes.

§ 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica.

§ 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada.

D. Normas para a adaptação da Liturgia à índole e tradições dos povos”.

Como podemos perceber, não há nenhuma dissolução do latim na liturgia e sim uma promoção da língua vernácula (o português) para a melhor participação da assembléia.

Sobre a língua a ser utilizada na Liturgia

54. A língua vernácula pode dar-se, nas missas celebradas com o povo, um lugar conveniente, sobretudo nas leituras e na «oração comum» e, segundo as diversas circunstâncias dos lugares, nas partes que pertencem ao povo, conforme o estabelecido no art. 36 desta Constituição.
Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem.

Se alguns lugares parecer oportuno um uso mais amplo do vernáculo na missa, observe-se o que fica determinado no art. 40 desta Constituição.”

Art. 40 : Casos especiais

"40. Mas como em alguns lugares e circunstâncias é urgente fazer uma adaptação mais profunda da Liturgia, que é, por isso, mais difícil:

1) Deve a competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2, considerar com muita prudência e atenção o que, neste aspecto, das tradições e génio de cada povo, poderá oportunamente ser aceite na Liturgia. Proponham-se à Sé Apostólica as adaptações julgadas úteis ou necessárias, para serem introduzidas com o seu consentimento.

2) Para se fazer a adaptação com a devida cautela, a Sé Apostólica poderá dar, se for necessário, à mesma autoridade eclesiástica territorial a faculdade de permitir e dirigir as experiências prévias que forem precisas, em alguns grupos que sejam aptos para isso e por um tempo determinado.

3) Como as leis litúrgicas criam em geral dificuldades especiais quanto à adaptação, sobretudo nas Missões, haja, para a sua elaboração, pessoas competentes na matéria de que se trata.”

Prosseguimos em relação aos outros sacramentos e sacramentais:

“63. Pode ser frequentemente muito útil para o povo o uso do vernáculo na administração dos sacramentos e sacramentais.Dê-se-lhe, por isso, maior importância segundo estas normas:

a) Na administração dós sacramentos e sacramentais pode usar-se o vernáculo, segundo o estatuído no art. 36;

b) A competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2." desta Constituição, prepare o mais depressa possível, com base na nova edição do Ritual romano, os Rituais particulares, adaptados às necessidades de cada uma das regiões, mesmo quanto à língua. Procure-se que sejam postos em vigor nas respectivas regiões depois de aprovados pela Sé Apostólica. Na composição destes Rituais ou especiais «Colecções de ritos» não devem omitir-se as instruções que o Ritual romano coloca no início de cada rito, quer sejam de carácter pastoral, quer digam respeito às rubricas, quer tenham especial importância comunitária.”

Percebemos que a promoção da língua vernácula (português) permanece muito ativa no documento, mas o latim ainda é o patrimônio e de um grau importante a ser considerado.

Quanto ao ofício Divino:

“101. § 1. Conforme à tradição secular do rito latino, a língua a usar no Ofício divino é o latim. O Ordinário poderá, contudo, conceder, em casos particulares, aos clérigos para quem o uso da língua latina for um impedimento grave para devidamente recitarem o Ofício, a faculdade de usarem uma tradução em vernáculo, composta segundo a norma do art. 36.

§ 2. O Superior competente pode conceder às Monjas, como também aos membros dos Institutos de perfeição, não clérigos ou mulheres, o uso do vernáculo no Ofício divino, mesmo na celebração coral, desde que a versão seja aprovada.

§ 3. Cumprem a sua obrigação de rezar o Ofício divino os clérigos que o recitem em vernáculo com a assembleia dos fiéis ou com aqueles a que se refere o § 2, desde que a tradução seja aprovada.”

Notamos mais uma vez o grau de importância da promoção da língua vernácula, mas o latim ainda ocupa o seu lugar.

Quanto á música: 

“113. A acção litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação activa do povo.
Observe-se, quanto à língua a usar, o art. 36; quanto à Missa, o art. 54; quanto aos sacramentos, o art. 63; e quanto ao Ofício divino, o art. 101.”

No documento SacrosanctumConcilium não é encontrado nenhuma obrigação da retirada do latim na Liturgia da Igreja. Sabemos sim, que a Língua vernácula foi promovida para ter o seu lugar e também se tornou uma riqueza de inestimável valor para a Igreja (mesmo com alguns erros de tradução), mas excluir totalmente o latim não condiz com o documento apresentado.
Documentos posteriores enfatizaram mais a promoção da língua vernácula na liturgia, tanto que o que vemos hoje é somente a Missa sendo celebrada toda na língua vernácula. Então, para onde foi o latim? Sendo uma língua de quase de dois mil anos de tradição na Liturgia da Igreja.

Não cabe aqui recorrer ás razões sociais, movimentos e tendências relativistas, porque estamos tratando de um assunto linguístico litúrgico; mas o que se sucedeu foi á extinção por completo do latim na Liturgia, com toda a sua história, riqueza e originalidade. Quando o Senhor foi crucificado na cruz, estava o latim entre as três línguas escritas no cartaz colocado por Pôncio Pilatos no alto do madeiro, e Pôncio Pilatos não atendeu as reivindicações das autoridades religiosas (farizeus) para retira-lo desta placa.

Até hoje há muitos textos sagrados em latim, podemos citar a oração de exorcismo. Esta só pode ser pronunciada em latim, pelo fato de ser uma língua morta e conter nela toda a originalidade e sem erros de interpretação. 

Quando é citado este assunto “a volta do latim”, muitas pessoas sentem calafrios, demonstram medo e repugnância como se fosse algo de muito errado que aconteceu e que vai retornar a Igreja. Mas isso é um absurdo! Se colocarmos na balança de toda a história da Igreja,sendo de um lado todos os santos, papas, mártires, leigos e fiéis que morreram em estado de santidade, que rezaram a Missa em latim e do outro, todos os santos, papas, mártires, leigos e fiéis que morreram em estado de santidade, mas que rezaram a Missa em vernáculo, a balança quebrará de tanto peso que será colocado do lado dos que rezaram a missa em Latim. Não houve uma ruptura da Igreja depois do concílio, a Igreja é e sempre foi a mesma de sempre e o latim era antes de tudo uma ferramenta de unidade.
Há uma história da segunda guerra mundial em que num determinado dia, dois soldados estavam rezando uma missa em Latim em uma Igreja, eram um francês e um alemão, inimigos de guerra. Ambos sabiam da rivalidade, mas a língua os unia naquela sagrada liturgia.

Esta não é uma provocação ou reivindicação para a volta do uso do latim na Liturgia, e sim um aviso prévio de respeito. Não é uma fomentação para retirar tudo o que foi conquistado pela Liturgia nestes anos pós Concílio Vaticano II em relação á língua vernácula, até porque esta conquista é importante para a Igreja. O vernáculo vai continuar a permanecer, mas o latim, como nos cânticos (Gregoriano), merece o seu devido respeito.
O Papa Bento XVI promoveu a reforma da reforma Litúrgica, sendo com isto, uma possível volta das riquezas (raízes) perdidas depois do Concílio Vaticano II. 

Por tanto, fica uma recordação e uma valorização para o que o futuro nos aguarda. Quanto ao uso do latim, o povo não se assuste, mas tenha orgulho de saborear o que milhares de santos saciaram ao longo de nossa história.

36. §1. Linguae latinae usus, salvo particulari iure, in Ritibus latinis servetur.

Referências na Introdução Geral do Missal Romano

“12. O Concílio Vaticano II, reunido para adaptar a Igreja às necessidades de seu múnus apostólico nos nossos dias, examinou em profundidade, como o Concílio de Trento, o aspecto catequético e pastoral da sagrada Liturgia15. E, como nenhum católico negue a legitimidade e a eficiência de um rito sagrado realizado em língua latina, ele pôde reconhecer que "não raro o uso da língua vernácula seria muito útil para o povo" e conceder a licença para usá-la16. O ardente entusiasmo com que esta deliberação foi acolhida por toda parte fez com que logo, sob a direção dos Bispos e da própria Sé Apostólica, todas as celebrações litúrgicas participadas pelo povo pudessem realizar-se em língua vernácula, para que mais plenamente se compreendesse o mistério celebrado.
13.       Contudo, como o uso da língua vernácula na sagrada Liturgia é apenas um instrumento, embora de grande importância, pelo qual mais claramente se realiza a catequese do mistério contido na celebração, o Concílio Vaticano II ordenou que algumas prescrições do Concílio de Trento, ainda não cumpridas em todos os lugares, fossem postas em prática, com a homilia nos domingos e dias de festa17, ou a introdução de algumas explicações durante os ritos sagrados18.”


41.       Em igualdade de condições, o canto gregoriano ocupa o primeiro lugar, como próprio da Liturgia romana. Outros gêneros de música sacra, especialmente a polifonia, não são absolutamente excluídos, contanto que se harmonizem com o espírito da ação litúrgica e favoreçam a participação de todos os fiéis50.

Uma vez que se realizam sempre mais freqüentemente reuniões internacionais de fiéis, convém que aprendam a cantar juntos em latim ao menos algumas partes do Ordinário da Missa, principalmente o símbolo da fé e a oração do Senhor, empregando-se melodias mais simples51. 

Citações no Codigo de Direiro Canônico

"Cân. 928 — Realize-se a celebração eucarística na língua latina ou em outra língua, contanto que os textos litúrgicos estejam legitimamente aprovados
Cân. 249 — Nas Normas da formação sacerdotal proveja-se a que os alunos não só aprendam cuidadosamente a língua pátria, mas dominem também a língua latina e tenham conhecimentos das línguas estrangeiras que sejam necessárias ou úteis à sua formação e ao exercício do ministério pastoral."


Link do vídeo do Padre Paulo Ricardo explicando o uso do latim na Liturgia, vale a pena assistir.

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