quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Estudando a música litúrgica (Ens. 79 da CNBB) - Parte II


 
Dando prosseguimento nos estudos do Ensino 79 da CNBB, veremos nesta matéria a segunda parte do ensino sobre a música litúrgica. Quem se interessar a ver a primeira parte deste estudo, clique no link a seguir.
Parte I

1.3. NOSSAS FALHAS, LACUNAS A SER PREENCHIDAS, PROBLEMAS
QUE NOS DESAFIAM


23. Observa-se, aqui e acolá, um recíproco distanciamento entre músicos
dotados de uma arte musical mais elaborada e a experiência comunitária da fé. De um
lado, nem sempre os músicos de mais aprimorada cultura musical se entrosam e se
identificam com a experiência celebrativa das comunidades. Do outro, nem sempre as
comunidades se preocupam em melhorar seu desempenho musical e beneficiar-se da
colaboração de músicos competentes. Tanto as pessoas que se ocupam do canto nas
comunidades precisariam ser incentivadas a aprimorar sua formação litúrgica e musical,
quanto os músicos profissionais precisariam receber uma formação cristã e litúrgica.

24. Ainda são freqüentes as celebrações em que alguém ou um grupo executa
sozinho todos os cantos, não se importando com a participação do povo; assembléias que
pecam pela passividade e desinteresse pelo canto; ou, ao contrário, celebrações em que a
assembléia executa todos os cantos, sem valorizar outras possibilidades (solo, grupo, coro,
forma litânica).
25. A postura de alguns animadores e animadoras do canto nem sempre tem
propiciado um clima de oração e de interiorização. Às vezes há mais “ruído” e distração
do que contemplação, escuta e louvor. Outras vezes, a música é vista meramente como
“passatempo”, para quebrar a monotonia de celebrações enfadonhas e rotineiras.
26. Não são poucos os animadores ou animadoras de canto que, por falta de
formação litúrgica, desconhecem os critérios de escolha dos cantos para uma celebração: a
funcionalidade de cada canto com relação aos vários momentos da celebração; a
hierarquia dos cantos: uns elementares, e por isso mesmo mais importantes e necessários;
outros acessórios e, conforme as oportunidades, dispensáveis; a adequação dos cantos a
cada tempo litúrgico, a cada festa, a cada tipo de celebração e a cada tipo de assembléia.
27. Além disso, as missas dos chamados “meses temáticos”, ou missas
temáticas, promovidas por grande número de folhetos litúrgicos, resultam numa total
dicotomia entre o canto e a liturgia. Continua-se cantando “na” liturgia qualquer música
religiosa, catequética ou de mensagem, em vez de cantar “a” liturgia. Este mesmo erro
ocorre também quando alguns movimentos e/ou grupos propõem músicas que não estão
de acordo com a ação ritual e os tempos litúrgicos.
28. Em nível de comunicação, existem alguns problemas que não favorecem a
execução do canto: instalação ou regulagem inadequada do serviço de som, abuso do
microfone (abafando a voz da assembléia, numa postura de “show”), abuso do volume dos
instrumentos, bandas e grupos não integrados com a equipe de celebração, sem formação
e sem motivação litúrgica.
29. Os instrumentos musicais, em geral, são usados só para acompanhar o
canto, e não são valorizados para executar um prelúdio, um interlúdio ou um poslúdio, e
assim propiciar clima de interiorização e maior proveito espiritual em determinados
momentos da celebração.
30. A demasiada mudança de repertório, por conta de uma superficial mania de
novidade ou concessão à onda de consumismo, faz com que o povo não aprenda bem
nenhum canto, ficando impedido de participar dele com gosto e prazer, quando se sabe
que a repetição, em matéria de canto, além de favorecer a memorização, é um fator de
densidade emocional e simbólica.
31. O cantar das assembléias demonstra, não raro, grande pobreza rítmica e
contrasta com a riqueza de ritmos da música brasileira. E nem poderia ser diferente, pois
mesmo aqueles cantos que, por sua natureza, são portadores de ritmo bem marcante e
característico, cantados sem o devido acompanhamento instrumental, terminam na vala
comum da mesmice arrastada e entediante.
32. Por outro lado, os textos de diversos cantos muito deixam a desejar: ora
trazem discurso complicado e doutrinário, sem poesia e sem unção; ora são mero jogo de
rima, vazio e artificial; ora contêm muito texto para pouca melodia, dificultando a
execução; ora pecam pela métrica irregular dos versos e das estrofes; ora ainda falham por
freqüentes desencontros entre os acentos das palavras e os acentos da melodia, chegando a
deformar o real sentido das palavras; ora, finalmente, carregam refrãos bem mais extensos
que as estrofes, numa desproporção que torna o canto pesado e de difícil assimilação da
parte da assembléia.
33. Continua ocorrendo, ainda hoje, a prática da lei do menor esforço ou falta
de criatividade musical
, ao utilizar-se músicas de sucesso, com textos adaptados para uso
na celebração, sem maiores critérios.
34. Muitas missas, transmitidas pela televisão e pelo rádio, são pobres e não
edificam os telespectadores e ouvintes, devido à deficiente qualidade musical, por conta
de escolha não criteriosa dos cantos e a má qualidade na interpretação vocal e/ou
instrumental.

35. É lamentável que a maioria dos que presidem hoje as celebrações litúrgicas
não canta aquelas partes que lhes são próprias (Orações, Prefácio, Narrativa da Instituição,
Anamnese, Doxologia...), como propõe a tradição multissecular das Igrejas e
oportunamente sugere o nosso Hinário Litúrgico.
36. Uma das causas do descuido no canto litúrgico nas comunidades é o fato
de, nas próprias casas de formação sacerdotal ou religiosa, não se cuidar devidamente da
formação litúrgico-musical dos formandos, nem se proporcionar oportunidades de
formação mais aprimorada aos que têm maior talento e pendor. Outras vezes, não há
interesse da parte dos próprios formandos, por considerarem a música uma arte
dispensável. Este desinteresse pode ser conseqüência da falta de vivência litúrgicomusical
incluindo aqui, o canto gregoriano e a polifonia sacra.
37. Muitos dos que presidem a celebração apenas “suportam” o canto da
assembléia, em vez de incentivá-lo e valorizá-lo, criando assim obstáculos ao povo, no
exercício do direito e dever que tem de participar ativamente da celebração, mediante o
canto.
38. Por toda a parte, faltam pessoas competentes, capazes de organizar e
orientar a prática musical nas comunidades. Para garantir uma preparação adequada de
pessoas dotadas, é urgente que as comunidades, paróquias e dioceses invistam na
formação litúrgico-musical destes agentes.

39. Muitas comunidades não têm manifestado interesse na aquisição de
músicos competentes e de coros de boa qualidade. Isso ocorre, entre outras razões, pelo
fato de não se remunerar devidamente o serviço dos músicos e de não se investir na sua
formação litúrgico-musical. É sintomático que, nos conservatórios e nas faculdades de
música, a grande maioria dos estudantes provém das Igrejas Evangélicas.

40. Embora os Cursos de Canto Pastoral e Litúrgico venham ajudando muito na
aprendizagem de cantos, muitas vezes ainda falham por não valorizar os cantos
propriamente litúrgicos, limitando-se ao mero ensaio, sem se preocupar o bastante com o
embasamento litúrgico, teológico e espiritual.

41. Continua problemático o canto entre os participantes de celebrações
ocasionais, como bodas, casamentos, missa de 15 anos, missa de 7º dia, formatura etc.,
seja por falta de uma assembléia motivada, seja por falta de conhecimento de cantos
adequados. Se, por uma parte, há cantos que têm o mérito de evidenciar o fato humano da
união conjugal, do aniversário natalício ou da morte, por outra, são pobres ou carentes em
celebrar a dimensão cristã e pascal desses eventos.
7 Cf. SC 14.
8 Instrução sobre a Música na Sagrada Liturgia Musicam Sacram (MS), nº 5 e 4.
11
42. Há também coros polifônicos que não fazem distinção entre música sacra e
música litúrgica, entoando cantos que não são próprios para a celebração.
43. Sintomas preocupantes: celebrações promovidas por movimentos
religiosos,
congregando freqüentemente grande número de participantes, aqui e acolá,
com ampla divulgação da mídia, pouco levam em conta os textos litúrgicos, substituindoos
facilmente por textos de grande pobreza existencial, poética e teológica. Descamba-se
para desvios preocupantes, que podem desvirtuar a experiência espiritual da comunidade
cristã de várias maneiras:
44. seja pelo exagerado individualismo, intimista e sentimentalista, muito “eu
e muito “meu”, desvirtuando a dimensão comunitária da fé, numa busca de emoções que
reduz a relação com Deus a mero jogo de sentimentos
, sem a profundidade e a amplitude
do compromisso cristão, sem a seriedade da fé como entrega confiante à vontade do Pai,
em comunhão com os irmãos e irmãs, para a realização do seu Reino aqui e agora. Quão
distantes estamos de textos como os três Cânticos Evangélicos registrados nos dois
primeiros capítulos do Evangelho de Lucas, que bem poderiam servir de referência para
todos os autores e ministros musicais: cantos nos quais o que sobressai é a dimensão
coletiva da fé, que celebra a ação libertadora de Deus em favor de todo o povo; cantos em
que o “eu” ou o “meu”, quando aparecem, chegam explicitamente carregados das
esperanças de todo o povo
, num forte sentimento de solidariedade com os oprimidos e
excluídos da terra!;
45. seja pelo exagerado militantismo: cantos que pregam com insistência a luta
pela justiça social, pela superação dos problemas ecológicos e econômicos, mas que, nesta
pretensão de promover o engajamento sociopolítico dos cristãos, empobrecem a sua
experiência espiritual, ao não cultivar suficientemente as razões da Fé, a referência
essencial a Jesus Cristo, a dimensão poética e orante do canto litúrgico. Os Salmos do
Antigo Testamento e os muitos hinos que aparecem nos textos do Novo Testamento, bem
como a longa tradição da Igreja, devem ser sempre ponto de referência para o canto de
hoje também.
Diante desta segunda parte deste estudo, pergunta-se:

46. • Por onde você tem passado, tem percebido alguma dessas falhas, dessas
mazelas, desses problemas?

• Revendo, com serenidade, sua própria atuação no campo da música
litúrgica, reconhece alguma destas marcas negativas?

• De tudo isso, quais os problemas que mais o desafiam, e qual poderia ser sua
contribuição pessoal para que a Igreja local, onde você exerce o seu ministério musical,
vá encontrando soluções eficazes?

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